segunda-feira, 6 de agosto de 2012

BANDIDO BOM...


Até parece que Herodes voltou. Pelos quatro cantos do País, senão do mundo, está havendo sacrifícios de crianças. No Rio, balas perdidas as alcançam dentro de casa, nos folguedos e até no interior de carros, em função da troca de tiros entre policiais e bandidos; pais tresloucados jogam filha do alto de edifício; criança em Portugal desaparece do quarto enquanto dormia e os pais almoçavam no restaurante do hotel. Tiroteio acontece em qualquer local sem o mínimo respeito aos transeuntes, é uma acirrada guerra entre policiais e facínoras. Todo dia a imprensa noticia fatos tendo como vítimas crianças. Impossível catalogar o sacrifício de inocentes vitimados pelo desleixo, indiferença e ignorância de pais ou responsáveis, embora a situação tenha melhorado muito se levar em conta a extensão territorial do Brasil. O estranho é que nos demais países crimes análogos vêm ocorrendo.

Mas quando o fato é cometido pela polícia, todos ficam aterrados; afinal, essa corporação está preparada para defender a comunidade ou para atingí-la da pior maneira: nas crianças? Foi puro acidente! Dirá alguém. Ora, homens escolhidos a dedo e, antes, preparados para a função, indicam que a intenção era exatamente evitar equívocos: atirar em uma família dentro de um carro em vez de atingir os bandidos. Não pode haver dúvida num momento destes. Tem-se que pensar rápido e ver com acuidade. Pode-se acreditar que a polícia esteja bem intencionada; no mínimo é o que todos querem crer, claro! Mas atirar a esmo é imprudência. Parece tratar-se de gente que vê filme policial sem saber que a cidade é cenográfica, as balas de mentirinha e as pessoas figurantes. Seria imbecilidade demais. “Pero que los hay los hay”. Como fica a confiança da população quanto aos homens treinados (e mal pagos!) a lhe dar proteção, se eles são os primeiros a atingir as crianças, filhas da comunidade? Preferia esta ser a vítima. 
Por que, entretanto, as crianças? São as mudanças que chegam abruptas, inesperadas, com o crescimento demográfico e, com o descuido dos governos, que acham estar lidando com cidades pacatas, quando estas podem ser aos milhares, porém, sua população vive entre os que chegam e passam, em meio a foragidos e forasteiros, não existindo mais cidade calma e pacata. Em todos os lugares estão os fugitivos, assaltantes, traficantes, sempre em fuga à lei e, quando são encontrados, numa cidade como Anápolis, por exemplo, a zoeira então acontece: são tiroteios e corrida de carros, tentando cercar bandidos e estes, no medo de morrer, atiram a esmo e, como a polícia se acha no direito de atirar para valer, o faz aleatoriamente, somando os dramas que temos visto. 
É preciso que se tenha muito cuidado para viver hoje em dia. Da calmaria de uma pacata vila pode explodir um bombardeio promovido por perseguidos e perseguidores, e quem haverá de sofrer as consequências disso, senão os moradores?
Os governantes não têm investido em segurança, embora seja a primeira promessa que fazem em época de campanha. Cada rua devia ter dois policiais num constante vaievém, revezando-se de quando em vez para não se tornar íntima das pessoas e se corromper, mas armas apropriadas não têm. Os bandidos estão modernamente armados e, pelo que se vê nas reportagens, parece levar imensas vantagens no tráfico e demais crimes que cometem, enquanto a polícia recebe pouco, um quase nada parece valer sua vida, quando devia ser o contrário: o servidor de segurança da comunidade devia ter um soldo que compensasse se arriscar tanto, pois na fatalidade de seu óbito, pelo menos a família estaria assegurada.
Não adianta sonhar com segurança sem priorizá-la verdadeiramente, dando aos candidatos ao curso de policiais uma capacitação mega especial e de última geração com excelente cobertura salarial; ampla aparelhagem e modernos equipamentos, além de armas no mínimo compatíveis com as dos bandidos. Não podemos fazer apologia à violência, mas façamos uma paródia ao delegado que disse uma frase e a repetiremos diferentemente: “Bandido bom é bandido... Preso!”
É isso.

(Iron Junqueira, diretor do Lar da Criança Humberto de Campos; educador; jornalista)

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