Até parece que Herodes voltou. Pelos quatro cantos do País, senão do mundo, está havendo sacrifícios de crianças. No Rio, balas perdidas as alcançam dentro de casa, nos folguedos e até no interior de carros, em função da troca de tiros entre policiais e bandidos; pais tresloucados jogam filha do alto de edifício; criança em Portugal desaparece do quarto enquanto dormia e os pais almoçavam no restaurante do hotel. Tiroteio acontece em qualquer local sem o mínimo respeito aos transeuntes, é uma acirrada guerra entre policiais e facínoras. Todo dia a imprensa noticia fatos tendo como vítimas crianças. Impossível catalogar o sacrifício de inocentes vitimados pelo desleixo, indiferença e ignorância de pais ou responsáveis, embora a situação tenha melhorado muito se levar em conta a extensão territorial do Brasil. O estranho é que nos demais países crimes análogos vêm ocorrendo.
Mas quando o fato é cometido pela polícia, todos ficam aterrados; afinal, essa corporação está preparada para defender a comunidade ou para atingí-la da pior maneira: nas crianças? Foi puro acidente! Dirá alguém. Ora, homens escolhidos a dedo e, antes, preparados para a função, indicam que a intenção era exatamente evitar equívocos: atirar em uma família dentro de um carro em vez de atingir os bandidos. Não pode haver dúvida num momento destes. Tem-se que pensar rápido e ver com acuidade. Pode-se acreditar que a polícia esteja bem intencionada; no mínimo é o que todos querem crer, claro! Mas atirar a esmo é imprudência. Parece tratar-se de gente que vê filme policial sem saber que a cidade é cenográfica, as balas de mentirinha e as pessoas figurantes. Seria imbecilidade demais. “Pero que los hay los hay”. Como fica a confiança da população quanto aos homens treinados (e mal pagos!) a lhe dar proteção, se eles são os primeiros a atingir as crianças, filhas da comunidade? Preferia esta ser a vítima.
Por que, entretanto, as crianças? São as mudanças que chegam abruptas, inesperadas, com o crescimento demográfico e, com o descuido dos governos, que acham estar lidando com cidades pacatas, quando estas podem ser aos milhares, porém, sua população vive entre os que chegam e passam, em meio a foragidos e forasteiros, não existindo mais cidade calma e pacata. Em todos os lugares estão os fugitivos, assaltantes, traficantes, sempre em fuga à lei e, quando são encontrados, numa cidade como Anápolis, por exemplo, a zoeira então acontece: são tiroteios e corrida de carros, tentando cercar bandidos e estes, no medo de morrer, atiram a esmo e, como a polícia se acha no direito de atirar para valer, o faz aleatoriamente, somando os dramas que temos visto.
É preciso que se tenha muito cuidado para viver hoje em dia. Da calmaria de uma pacata vila pode explodir um bombardeio promovido por perseguidos e perseguidores, e quem haverá de sofrer as consequências disso, senão os moradores?
Os governantes não têm investido em segurança, embora seja a primeira promessa que fazem em época de campanha. Cada rua devia ter dois policiais num constante vaievém, revezando-se de quando em vez para não se tornar íntima das pessoas e se corromper, mas armas apropriadas não têm. Os bandidos estão modernamente armados e, pelo que se vê nas reportagens, parece levar imensas vantagens no tráfico e demais crimes que cometem, enquanto a polícia recebe pouco, um quase nada parece valer sua vida, quando devia ser o contrário: o servidor de segurança da comunidade devia ter um soldo que compensasse se arriscar tanto, pois na fatalidade de seu óbito, pelo menos a família estaria assegurada.
Não adianta sonhar com segurança sem priorizá-la verdadeiramente, dando aos candidatos ao curso de policiais uma capacitação mega especial e de última geração com excelente cobertura salarial; ampla aparelhagem e modernos equipamentos, além de armas no mínimo compatíveis com as dos bandidos. Não podemos fazer apologia à violência, mas façamos uma paródia ao delegado que disse uma frase e a repetiremos diferentemente: “Bandido bom é bandido... Preso!”
É isso.
(Iron Junqueira, diretor do Lar da Criança Humberto de Campos; educador; jornalista)

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