Iron
Junqueira
Finalmente
desesperaste amigo.
Antes,
porém que a aflição te aninhasse na alma, muitas foram as advertências que,
primeiramente, te buscaram a consciência.
Enquanto
te entregavas às extravagancias sugestões prudentes te alertavam do perigo.
Entretanto, rias e debochavas de tudo. Querias, mesmo, era continuar gozando a
vida, em todos os seus lances de ventura, alheio, completo, à transformação
necessária.
Enquanto
te esbaldavas, inconsequente, bebericando e comentando futilidades sem conta,
urtigando, com palavras impensadas, a vida do próximo, advertências te chegavam
à alma, através de amigos bondosos, ou de lições atuais, que te surgiam aos
olhos. No entanto, rias dos lúcidos conceitos e continuavas à sombra do teu
comodismo, a viver segundo os teus impulsos.
E
quando pequeninas perturbações te experimentavam o espírito, concitando-te à
meditação e à prudência, houve mesmo quem se aproximasse de ti, estendendo-te o
remédio do entendimento, buscando sanar, do teu “eu”, as espessas trevas que
nele há. Então, porque te encontravas aflito, ouvias em silêncio os preceitos
de luz, e não mais rias. Nem debochavas.
Mas
porque as bênçãos de Deus, distendidas a ti pela dedicação de amigos e parentes,
te aliviavam os padecimentos, voltavas aos teus arroubos milenares,
satisfazendo os teus caprichos e dando larga aos teus defeitos, contraindo
débitos incontáveis com a tua consciência, sempre indiferente aos conclames de
retidão que, bilhões de vezes — te ilustraram o pensamento.
Agora,
finalmente, aumentando os teus sofrimentos, e sentindo debalde o amparo de
amigos, porque não fizeste por onde merecê-los, compreendeste que tudo dependia
de ti mesmo, mas frágil e incapaz de lutares sozinho, em detrimento dos teus
impulsos infelizes, então, amigo, te desesperaste!
Falta
de advertência não foi. Mil vozes fraternas te falaram do precipício, tentando
te mostrar a estrada reta — que conduz à vida.
Falta
de entendimento da tua parte não foi. Mil vezes a tua genialidade construiu ardis,
com espantosa habilidade, vencendo a todos os teus adversários, com escusos
processos. Bem poderias ter utilizado, para o bem, a tua inteligência.
Agora
desesperaste. Ótimo!
“Deus
escreve certo em linhas tortas”. E faz com que o culpado estabeleça a sua própria sentença, pois deixa que a
consciência de cada um julgue a cada qual segundo as suas obras. Aí é que
funcionam as advertências: “quem com ferro fere, com ferro será ferido”. “Quem
planta, colhe”, tudo o que se faz a outrem é a si mesmo que o faz. Portanto, o
delituoso é punido com as próprias armas.
O
Supremo Juiz não castiga ninguém. A criatura é que castiga a si mesma: “se
semeia vento, é justo que tempestade colha”, sofrendo as consequências de todos
os seus erros tal como gozaria a ventura, se ventura houvesse plantado, segundo
a lei de causa e efeito.
Desesperaste
amigo. Estou satisfeito: finalmente te vejo lutando contigo mesmo, tentando
eliminar “o homem velho que és para que te revistas com o homem novo que deves
ser”, rogando, para tanto, o amparo certo que vem de Deus.
Se
não tivesse sido abordado pela Dor cruciante porque passas, não estarias, tal
como te vejo agora, a recorrer à Providencia do Alto, através de apelos
sinceros, estudando os preceitos do Grande Mestre, para o teu soerguimento
espiritual, salvando-te a ti mesmo, uma vez que ninguém — a não seres tu próprio podia te salvar, pois cada um já trás, sobre
os ombros, a própria cruz.
Só
a Dor aprimora o homem. Só ela fá-lo raciocinar. Só ela fá-lo humilhar-se e
voltar, a Deus, o seu coração, eliminando, assim, o seu orgulho, destruindo,
finalmente, o seu “eu” inferior, para que lhe vibre, somente, o seu “eu”
superior.
Bem
aventurado, pois os aflitos, os que choram, e os que buscam, porque — buscando,
acharão, e chorando, serão consolados...

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