Iron
Junqueira
Nasci
quando minha mãe estava na latrina. Quando ela percebeu que não era outra coisa
senão minha cabeçona na “boca da botija”. Ela sai correndo da casinha gritando
por sua mãe. Atravessou o quintal e sua mãe, dona Angelina, e Ordalina (cria da
casa) atenderam Dona Neném ouvindo delas que o bebê não caiu no poço porque a
cabeça de melancia não passava na boca da moringa.
Não
me achem estranho. Ao nascer vieram comigo vários problemas. Visão. Ouvido. E
motivos para choros. Mas a equipe de Deus, hora da revisão de qualidade,
compadeceu de mim. E me ajudou discretamente, sem que São Pedro o visse: jogou
um dom em minha mente. Colocou uma lupa no meu cérebro. De forma que eu me
lembrava de fatos que, quando eu os indagava à dona Neném, ela, assustada,
dizia:
—
Você se lembra disso? Não tinha nem um ano! Era segredo de estado o seu
natalício.
Até
hoje tenho crônicos problemas de visão e audição. Não me impedem de escrever coisas.
Em
compensação, sobra-me intuição, sei de fatos que me escondem — quem me fintou
as coisinhas; só estudei até metade da 1ª serie ginasial. Minha última aula foi
com o professor de francês Iran Vitoriano de Souza, muito jovem, mas
extremamente bom elegante e exímio mestre. Eu sempre fui e sou moleque
brincalhão e faço pilhérias desde criança. Sem parar. Hoje minhas brincadeiras
me incomodam. Quando as faço falam que sou velho. Eles é que ficaram, pois
tenho espírito feliz e, igual meu avô, não perco a cena: faço chacota e prego
peças em muitos.
Restou-me
um tio consanguíneo. O Tioripe. Embora ele seja, agora mais que tio, é um irmão
hiper legal, quase um pai, educado, respeitoso, gente que me restou amar.
Mas
o meu tio em questão, sem que o saiba, consegue com tanto afeto que
reciprocamente nos dedicamos, a dar boas explicações a todo mundo que nos conhece.
Vejamos:
Em
conversa comigo, uns fedamães perguntam — Você tem mais de 80 anos?
—
Quantos anos você presume que eu tenho? Respondo
—
88...
—
Porca que Pariu! Você suspeita que eu tenha tudo isso? O que em mim está tão
acabado assim?
—
Não — responde o PQP: é que eu conheço o seu tio e penso ser ele bem mais novo
que você!
—
Seguinte, Margoso! Eu tenho 77. O Tioripe 83. Pareço mais velho por causa do
cantor Silvio Caldas e sua canção — “respeite os meus cabelos brancos”.
—
Ah, desculpe então! Diz o cara.
—
Não tem nada, não.
— E
qual é o segundo problema que seu tio lhe causa sem que ele o saiba?
— É
que tudo que preciso comprar os vendedores me cobram caro. Pensam que ele é o Bill
Gates e que eu sou o Tioripe. Não, gente, vocês estão me confundindo com outra
pessoa.
—
Você não é o Dr. Oripedes do Cartório, das fazendas, dos cavalos árabes e
mangas largas de estimação, dos cobres?
—
Não, sou o Iron. Prazer!
—
Sobrinho, geralmente, não é mais novo? Volta o atendente.
—
Não. Em família numerosa isso é normal. O Tioripe nasceu com estrela “na testa
e eu, estrelado”... Só isso...
—
Tá bem. Sua compra deu R$45,99 eu redondo por 45 reais. O vendedor cedeu o tal
desconto.
Quando
me confundem com o Tioripe, isso é o que dá. No entanto, quando é o inverso, e
os donos confundem o Eurípedes Junqueira comigo, morro de rir e, para não
faltar com o respeito, esboço cara de paisagem.
—
Ou, Iron! Foi bom lhe ver! Falam com o Tio Orípe pensando ser eu.
— Por
falar, tenho uma conta sua pendurada aqui. Já vai pra 3 anos, com os juros.
—
Não amigo! Eu não compro fiado. Essa conta é do meu sobrinho Iron, aquele carro
que está sendo multado, injustamente, também é dele.
—
Ah, desculpe doutor Eurípedes.
—
Tem nada, não.
Chegando
em seu gabinete o Tioripe conta pro Fred e pro Júnior. Meu telefone toca. Só
pela fala risonha e rapidinha eu sei que se trata do parente mais feliz, depois
de mim; ele fala cortando ao meio uma miúda palavra, vejam se não é assim:
—
“Lô?” E já rindo para o interlocutor, prossegue:
—
Tem uma firma querendo protestar uma conta sua. Não vou fazer mal com o meu
primo lindo, kkkkk! Corto os juros do Cartório e você pague a firma, viu? E
fica rindo sempre alegre.
Momentos
depois é o Junior Junqueira, já com seu estilo expansivo, alto, alegre, o
contrario do Fred.
—
Primo bonito, meu cunhado manda lhe dizer que tem uma multa pra você pagar no
Detran, aquele abraço viu? E desliga.
29/09/2016

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