segunda-feira, 11 de abril de 2016

DE NOVO, O SOL.

DE NOVO, O SOL
Iron Junqueira


            Uma nova aurora brilhará além da noite espessa e tumultuada de minha vida, eu sei.
            Não verei os ribeiros azulados e espumantes. Nem roçarei com os pés as vagas brandas e prateadas de sol. Muito menos correrei pelas trilhas dos campos em flor, pois ainda restará muita coisa por fazer, até que eu mereça essa ventura.
            Apenas sei que, após esta noite tenebrosa, brilhará de novo o sol.
            O sol da liberdade. O sol que espancará apenas a treva da minha noite interior.
            Não poderei, bem o sei, reencontrar aquela felicidade perdida, há bilhões e bilhões de anos, quando eu não tinha, ainda, sombra na minha alma.
            Mas contentar-me-ei, apenas, com o sol, pois as trevas já não serão tão densas. E a minha consciência, após a grande noite, sentir-se-á mais amenizada pelas claridades do dever cumprido, sentir-se-á mais desafogada do turbilhão de meus erros.
            Bastar-me-á, sim, que a escuridão desta noite se dissipe um pouco. Um pouco ao menos.
            E isto só se dará quando, um dia, brilhar, de novo, o sol.
            Não poderei beijar os pés de quem sempre amei, e por quem, no seio da minha intensa noite, abandonei as largas estradas do prazer e da ilusão, preferindo sofrer a explosão da ignorância e da maldade alheia, para obedecer aquele por quem, certa vez, no tumulto da minha noite, prometi lealdade eterna, mesmo que, para tanto, tivesse que sofrer todos os testemunhos.
            Oh, manhãs de claridades e sonhos, que inebriam as almas justas de júbilos sempiternos! Não sentirei as tuas fragrâncias invadindo-me o coração, pois que não tenho, ainda, no coração, a humildade que preciso, para também, como tantos, correr pelos prados mágicos da beleza desconhecida. Mas estarei feliz quando minha noite se desfizer com o despontar de uma nova aurora, que brilhará além, para lá dos campos santos!
            Pena que não poderei ver, mesmo que de relance, a branca fimbria do teu manto, Amigo Inesquecível, Guia Maior, Senhor dos Pecadores!
            Quem sou eu, porém, para desejar tanto? Eis aí outro dos meus defeitos: sentir vontade, Senhor, de ver, ao menos, a sombra dos teus pés. Desculpa-me, Mestre. Os pecadores quase indomáveis como eu, carregam, no coração, além de outras, mais esta ousadia.

            E como um espectro sinistro, destinado aos horrores das grandes expiações, mergulho outra vez na escuridão espessa de minha noite e, lutando e gemendo, tudo fazendo por liberta-me das próprias sombras, espero, repleto de esperança, que um dia, não sei quando, brilhe, para mim, DE NOVO, O SOL.




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