DE NOVO, O SOL
Iron Junqueira
Uma
nova aurora brilhará além da noite espessa e tumultuada de minha vida, eu sei.
Não
verei os ribeiros azulados e espumantes. Nem roçarei com os pés as vagas
brandas e prateadas de sol. Muito menos correrei pelas trilhas dos campos em
flor, pois ainda restará muita coisa por fazer, até que eu mereça essa ventura.
Apenas
sei que, após esta noite tenebrosa, brilhará de novo o sol.
O
sol da liberdade. O sol que espancará apenas a treva da minha noite interior.
Não
poderei, bem o sei, reencontrar aquela felicidade perdida, há bilhões e bilhões
de anos, quando eu não tinha, ainda, sombra na minha alma.
Mas
contentar-me-ei, apenas, com o sol, pois as trevas já não serão tão densas. E a
minha consciência, após a grande noite, sentir-se-á mais amenizada pelas
claridades do dever cumprido, sentir-se-á mais desafogada do turbilhão de meus
erros.
Bastar-me-á,
sim, que a escuridão desta noite se dissipe um pouco. Um pouco ao menos.
E
isto só se dará quando, um dia, brilhar, de novo, o sol.
Não
poderei beijar os pés de quem sempre amei, e por quem, no seio da minha intensa
noite, abandonei as largas estradas do prazer e da ilusão, preferindo sofrer a
explosão da ignorância e da maldade alheia, para obedecer aquele por quem,
certa vez, no tumulto da minha noite, prometi lealdade eterna, mesmo que, para
tanto, tivesse que sofrer todos os testemunhos.
Oh,
manhãs de claridades e sonhos, que inebriam as almas justas de júbilos sempiternos!
Não sentirei as tuas fragrâncias invadindo-me o coração, pois que não tenho,
ainda, no coração, a humildade que preciso, para também, como tantos, correr
pelos prados mágicos da beleza desconhecida. Mas estarei feliz quando minha
noite se desfizer com o despontar de uma nova aurora, que brilhará além, para
lá dos campos santos!
Pena
que não poderei ver, mesmo que de relance, a branca fimbria do teu manto, Amigo
Inesquecível, Guia Maior, Senhor dos Pecadores!
Quem
sou eu, porém, para desejar tanto? Eis aí outro dos meus defeitos: sentir
vontade, Senhor, de ver, ao menos, a sombra dos teus pés. Desculpa-me, Mestre.
Os pecadores quase indomáveis como eu, carregam, no coração, além de outras, mais
esta ousadia.
E
como um espectro sinistro, destinado aos horrores das grandes expiações, mergulho
outra vez na escuridão espessa de minha noite e, lutando e gemendo, tudo
fazendo por liberta-me das próprias sombras, espero, repleto de esperança, que
um dia, não sei quando, brilhe, para mim, DE NOVO, O SOL.

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