Iron
Junqueira
Eu
não sei que idade tinha aquele moleque cujas diabruras se identificavam com as
minhas...
Só
sei que ele tinha uma irmã e uma prima, que as duas me encantavam o coração,
melhor dizendo, dividiam o meu pobre e romântico bronze.
Quando
as duas belas primas iam para o jornal que era do meu pai, Sebastião Junqueira,
Tribuna de Anápolis, eu ficava babando, ou mais abobado do que já era. Uma era
morena, a prima; a outra, loira.
Enquanto
entre elas meu bronze derretia, junto às primas apareceu, certo dia, o tal
moleque de quem lhes falei... Quando percebi que o levado menino servia de flecheiro
do amor, passei a trata-lo com mais atenção. Quem sabe eu precisaria de alguma
ajuda relativa a elas, aí, então, o cupido estaria ao meu dispor.
O
menino — aquele endiabrado devia ser um adolescente — com a idade de uns 13 a
14 anos, não sei, e se chamava Wilton Alves Ferreira, conhecido por todos pelo
codinome Coquinho por ser filho de conhecido, querido e popular anapolino, do
saudoso Benedito Côco...
À
porta do jornal, à Rua Engenheiro Portela, 388, esquina com a Barão de Cotegipe
e, nesta esquina, ficava a Transportadora, onde trabalhavam o João e o Osvaldo,
dois excelentes amigos.
Eu
já tinha ensinado meu irmão mais novo Alaor a redigir uma crônica para o jornal
e a intitulei “vidinha” que era paginada e impressa ao lado da minha, que tinha
como título VIDA.
Mas
como o Wilton Coquinho começou a fazer parte da galera, estava sempre ali na
redação com suas belas parentas; uma loira, outra morena; e meu coure só
apanhando delas...
Era
tal de “ou decide logo ou desocupa a noiva”... Entre as duas eu ficava zambeta.
Com
qual eu me decidiria?
Enquanto
o guri alegre e brincalhão ia lendo o que eu escrevia, gostava, e ficava cada
vez mais “invocado”...
Em
clima de molecagem eu disse a ele: — Coquinho, meu irmão caçula aprendeu aqui,
comigo, a escrever uma crônica, toda semana. Você não quer tentar?
Nossa,
no que eu falei isso, o menino deu pulos de alegria...
E
eu vi as chances se abrirem para mim, ao pensar nas meninas que todo dia
estariam ali, no jornal, claro que na companhia do moleque, onde ele começou
sua vida literária e jornalística.
Meu
pai, dono do jornal, no entanto, trabalhava na Rádio Cultura, deixando os
funcionários e a direção do semanário, e tudo o mais relacionado, sob a minha
responsabilidade.
O
destino é a moenda que roda e não para, dando rumo ao curso da vida e a ninguém
prestando contas do seu permanente marejar.
E
foi então que, depois de ter iniciado seu trabalho no jornal, tendo publicado
uma meia dúzia de crônicas na Tribuna de Anápolis, o jornal foi vendido, eu fui
convocado a trabalhar na Rádio Cultura — e nunca mais retornei ao antigo
aconchego de alegria, de labor e de meus amigos...
Não
mais vi as meninas e nem o seu fiel escudeiro barulhento, o bambino Coquinho.
Passei
um dia pelo local, o jornal não era mais ali. A Transportadora tomara todo o
espaço, inclusive o do local onde funcionava a Tribuna.
E
as meninas bonitas da minha veneração e o “Velinha” delas?
Não
sei. Ninguém ali me deu notícias...
Alguns
anos depois fui descobrindo através da amizade do então jovem, agora adulto,
Wilton Alves, que as meninas tinham se casado; a morena com o Watson Alves
Ferreira, irmão do Coquinho; eram primos; então a morena eu já tinha perdido; a
loirinha tinha se casado com o dono da Transportadora. Senti que eu fui o ponto
de ligação na vida desses queridos e inesquecíveis contemporâneos...
Mais
algum tempo se passou e nem mais o amigo Wilton Alves Ferreira eu encontrei, na
cidade. Contaram-me que ele tinha se mudado para Imperatriz (MA), onde fora trabalhar
na área da comunicação: jornal e rádio.
Depois
de ter publicado vários livros, recebi um jornal de Imperatriz, onde havia uma
crônica sobre mim, muito boa, sincera, leal, escrita pelo escriba Wilton Alves
Ferreira, que falava da minha pessoa evidenciando sua gratidão e amizade com
seu talento de síntese, mas que me comoveu muito.
Essa
crônica dele é a introdução do meu livro “Na trilha da Esperança” já na sua 2°
edição.
Saudade
daquele tempo. Sinto que a gente não leva a vida. Ela é quem nos conduz para os
caminhos adrede definidos para nós.
Hoje
Wilton Ferreira é figura popular — e pública — respeitável na cidade
maranhense, já mencionada, onde labora na mesma profissão, está casado e tem
filhos. Mas continua o mesmo fanfarrão, alegre e feliz como sempre.
Está
publicando um livro que, por certo, será sua obra prima,
gerado na gráfica do seu coração, venturoso, que começou sua lida junto à sua
galerinha, hoje quase decana que se conheceu na porta do jornal que mudou o
destino de todos nós para um país chamado Lembrança, na rua da Poesia esquina
com a avenida da Saudade.

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