Iron
Junqueira
O
serviçal mais se queixava que trabalhava.
Clamava
contra aqueles que lhe ofertavam o trabalho, ensejando-lhe a conquista honesta
do pão. Pretendia lhe valorizassem os esforços e, se aspirava melhor salário,
não fazia por onde merecê-lo. Era um preguiçoso.
Lamuriava
e resmungava, constantemente, a seus colegas, destilando seus recalques e sua
revolta. Um dia, vendo-o reclamar agitado a segundos, disse-lhe o patrão, um
bom velhinho:
—
Perdeis muito tempo em lastimares. Não te descobri esforço, ação, disciplina,
embora as procurasse, em ti! E como pretendes melhor crédito, se nada produzes?
Como sonhas melhor sorte se, ao invés de agires, lastimas?
O
tempo que perdes em clamares, porque não o ocupas no aprimoramento de tuas funções?
Sejas, antes, uma autoridade no teu ofício para, depois, proclamares melhor
sorte. Lembra: “a cada um segundo os seus merecimentos”...
Senhor
de tuas responsabilidades, produze o melhor que possas — e receberás em dobro.
Movimenta
todos os teus recursos! Luta com ânimo, com alegria, com amor. E quando te
ordenarem: “trabalhes oito horas”, mostra que podes fazer muito mais — e
trabalha doze horas, em oito!
Honra
a ti mesmo, laborando com acerto, incansavelmente!
Trabalha
requisitando méritos para o teu espírito — não apenas cifrões para os teus
bolsos.
Antes
do dinheiro, o acrisolamento do “eu”. O pão vem do Pai: “olha as aves dos céus!
Não ceifam nem colhem” — mas comem!
Os
amoedados não conquistaram o seu patrimônio com queixumes, acomodados no ócio,
como tu! Não se fizeram com azedumes — mas com ação! Não te falo de herança e,
muito menos, do tesouro mal ganho. Não vem ao caso. Falo dos que lutaram dentro
dos preceitos de retidão. E tanto se desdobraram — que venceram. “Por que não
fazes também o mesmo”?
Como
aspiras a posição de diretor, numa empresa, quando não sabes, sequer, ser
empregado?
“A
águia — dizia o filósofo, não precisa de escadas para subir”. Mas não és uma
águia. Por conseguinte, é melhor que subas a escada, degrau por degrau.
Se
desejas, pois, ser valorizado, valoriza a ti mesmo, laborando com amor,
aproveitando todos os minutos da vida: cada sessenta segundos é oportunidade de
soerguimento.
Mesmo
a hora do descanso — é ocasião para estudo.
Utiliza
todos os teus talentos, acendrando o teu “eu”, em conquista das virtudes — que
são tesouros reais.
Aperfeiçoa
o teu trabalho, seja qual for, mesmo que o mais humilde: trabalho bem feito —
caráter do trabalhador.
No
exercício de tuas atribuições, com alegria e otimismo, faze o melhor que
possas, primando pela ordem, pela retidão, exemplificando a honradez, e estarás
não apenas ganhando o teu pão, como também enriquecendo o teu espírito, porque
“só o trabalho enobrece”.
Não
sejas como os negligentes que apenas “passam pela vida, e não vivem — vegetam”.
Nem
como os parvos que só se movimentam quando é tarde, que só agem melhor quando
solicitados. Que o teu esforço seja espontâneo, que ninguém precise
solicitá-lo.
Sê,
finalmente, como os grandes — que “não têm onde reclinar a cabeça”.
Labora
meu amigo, porque, enquanto laboras, acendras o teu “eu”, e estás livre de
erros, mentalizando inferioridades: o trabalho é o escudo contra o mal — a
chave para a Luz!
Aceita
o roteiro que te sugiro, e um dia te compreenderão as grandezas — e serão
grandes os teus méritos! Se não, pelo menos aprendeste a ser correto, amando as
coisas certas!... A lutares sozinho e com amor — conquistando a tua liberdade.
Trabalha
meu caro. Antes, porém, de mentalizares o soldo, recorda a tua elevação.
O
soldo é necessário. Mas o tesouro das virtudes é mais. Apenas para a conquista
do pão, de pouco vale o labor. Todavia, para se ser homem realmente, ele é
imprescindível.
O
serviçal ouviu-o atentamente, e reconhecendo a própria fraqueza, as próprias
falhas, ante as realidades da vida, exclamou, com visível e sincera
contrariedade:
—
Tens razão! Se o trabalho é esta verdade, então nunca trabalhei. Vegetei,
apenas, resmungando. Doravante, entretanto, não terei “onde reclinar a cabeça”
— e serei um Homem!

Nenhum comentário:
Postar um comentário