segunda-feira, 13 de junho de 2016

COMO SER UM HOMEM/ 11-06-2016


Iron Junqueira
           
            O serviçal mais se queixava que trabalhava.
            Clamava contra aqueles que lhe ofertavam o trabalho, ensejando-lhe a conquista honesta do pão. Pretendia lhe valorizassem os esforços e, se aspirava melhor salário, não fazia por onde merecê-lo. Era um preguiçoso.
            Lamuriava e resmungava, constantemente, a seus colegas, destilando seus recalques e sua revolta. Um dia, vendo-o reclamar agitado a segundos, disse-lhe o patrão, um bom velhinho:
            — Perdeis muito tempo em lastimares. Não te descobri esforço, ação, disciplina, embora as procurasse, em ti! E como pretendes melhor crédito, se nada produzes? Como sonhas melhor sorte se, ao invés de agires, lastimas?
            O tempo que perdes em clamares, porque não o ocupas no aprimoramento de tuas funções? Sejas, antes, uma autoridade no teu ofício para, depois, proclamares melhor sorte. Lembra: “a cada um segundo os seus merecimentos”...
            Senhor de tuas responsabilidades, produze o melhor que possas — e receberás em dobro.
            Movimenta todos os teus recursos! Luta com ânimo, com alegria, com amor. E quando te ordenarem: “trabalhes oito horas”, mostra que podes fazer muito mais — e trabalha doze horas, em oito!
            Honra a ti mesmo, laborando com acerto, incansavelmente!
            Trabalha requisitando méritos para o teu espírito — não apenas cifrões para os teus bolsos.
            Antes do dinheiro, o acrisolamento do “eu”. O pão vem do Pai: “olha as aves dos céus! Não ceifam nem colhem” — mas comem!
            Os amoedados não conquistaram o seu patrimônio com queixumes, acomodados no ócio, como tu! Não se fizeram com azedumes — mas com ação! Não te falo de herança e, muito menos, do tesouro mal ganho. Não vem ao caso. Falo dos que lutaram dentro dos preceitos de retidão. E tanto se desdobraram — que venceram. “Por que não fazes também o mesmo”?
            Como aspiras a posição de diretor, numa empresa, quando não sabes, sequer, ser empregado?
            “A águia — dizia o filósofo, não precisa de escadas para subir”. Mas não és uma águia. Por conseguinte, é melhor que subas a escada, degrau por degrau.
            Se desejas, pois, ser valorizado, valoriza a ti mesmo, laborando com amor, aproveitando todos os minutos da vida: cada sessenta segundos é oportunidade de soerguimento.
            Mesmo a hora do descanso — é ocasião para estudo.
            Utiliza todos os teus talentos, acendrando o teu “eu”, em conquista das virtudes — que são tesouros reais.
            Aperfeiçoa o teu trabalho, seja qual for, mesmo que o mais humilde: trabalho bem feito — caráter do trabalhador.
            No exercício de tuas atribuições, com alegria e otimismo, faze o melhor que possas, primando pela ordem, pela retidão, exemplificando a honradez, e estarás não apenas ganhando o teu pão, como também enriquecendo o teu espírito, porque “só o trabalho enobrece”.
            Não sejas como os negligentes que apenas “passam pela vida, e não vivem — vegetam”.
            Nem como os parvos que só se movimentam quando é tarde, que só agem melhor quando solicitados. Que o teu esforço seja espontâneo, que ninguém precise solicitá-lo.
            Sê, finalmente, como os grandes — que “não têm onde reclinar a cabeça”.
            Labora meu amigo, porque, enquanto laboras, acendras o teu “eu”, e estás livre de erros, mentalizando inferioridades: o trabalho é o escudo contra o mal — a chave para a Luz!
            Aceita o roteiro que te sugiro, e um dia te compreenderão as grandezas — e serão grandes os teus méritos! Se não, pelo menos aprendeste a ser correto, amando as coisas certas!... A lutares sozinho e com amor — conquistando a tua liberdade.
            Trabalha meu caro. Antes, porém, de mentalizares o soldo, recorda a tua elevação.
            O soldo é necessário. Mas o tesouro das virtudes é mais. Apenas para a conquista do pão, de pouco vale o labor. Todavia, para se ser homem realmente, ele é imprescindível.
            O serviçal ouviu-o atentamente, e reconhecendo a própria fraqueza, as próprias falhas, ante as realidades da vida, exclamou, com visível e sincera contrariedade:
            — Tens razão! Se o trabalho é esta verdade, então nunca trabalhei. Vegetei, apenas, resmungando. Doravante, entretanto, não terei “onde reclinar a cabeça” — e serei um Homem!




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