segunda-feira, 25 de julho de 2016

ERA TARDE DEMAIS PARA NÓS- 23/07/2016


Iron Junqueira

            Depois de reiteradas visitas àquela cidade e não o encontrando porque trabalhava em vários locais, sentiu que estava difícil encontrar o seu amado Rui e deixou um recado com a vizinha do local onde ele também trabalhava. Tendo recebido o endereço dela, foi ele à capital do citado bairro. Lá chegando viu um senhor magro, alto, húngaro, tipo austero, a quem se dirigiu.
            — O senhor é o pai da Any?
            — Sim. Sou. E você é o vagabundo dela?
            — Vagabundo é o senhor! Não é o pai dela? Respondeu o moço, um tanto emputecido.
            — Pois ela, de novo, foi atrás de você. Respondeu o senhor de um alpendre onde se preparava para adentrar a casa.
            — Pô!!! Outro desencontro? Exclamou Rui. Ela me desencontrando na cidade minha e eu a desencontrando na dela! Até quando? Pensava ele, enfurecido, enquanto retornava o percurso feito da estação de ônibus à casa do estrangeiro genitor da garota.
            Pelas ruas rememorava: mas quantas vezes ela esteve na minha cidade, foi à casa em que minha mãe e meus manos moravam, ficou conhecendo a todos, e não teve a chance de me encontrar... Não entendo... Foi à rádio, eu não estava; foi ao jornal, também eu não estava; foi às vizinhas, não me viam há dias; foi à construção que eu fazia, disseram-lhe que eu “acabara de sair”... Não entendo... Preciso encontrá-la...
            Assim pensava Rui enquanto exercia um amontoado de trabalhos... E o tempo foi rolando e os desencontros dos dois se repetindo...
            — Esteve uma moça hoje de manhã procurando por você! Eram os colegas de rádio, o dono da livraria, porém, Rui nem mais dava atenção a esses avisos... Não havia como encontrá-la...
            — Dona Isabel, se ela aparecer de novo, diga-lhe que se esqueça desse encontro que, parece, não ocorrerá nunca!
            Disse ele à senhora que cuidava da sala de palestra que ele frequentava, ao que ela:
            — Vou falar isso não, filho. Sei lá se ela surge um dia...
            De fato o tempo, a insistência de encontrarem-se foi inútil, pois não valeu tanto intento, que os acontecimentos se sucediam.
            — Espere mais um pouco Rui!
            Entretanto o rapaz não dava mais importância aos avisos e, certo dia, depois de encontrar Maria, Rui casou-se.
            Estava o rapaz numa instituição de atendimento a carentes, onde fora indicado diretor, quando um dos beneficiários lhe disse:
            — Tem uma mulher no seu escritório, esperando-o.
            Tranquila e calmamente deixou as pessoas a quem atendia em companhia de sua esposa e foi até seu escritório, atender quem o esperava. Tão logo entrou na sala, foi enlaçado por afetuoso abraço, ao mesmo tempo em que ouvia.
            — Enfim, encontrei-o! E não o perderei jamais.
            Rui foi observar, era ela — a primeira e inesquecível namorada, Any, filha de malcriado estrangeiro.
            — Você, Any? Longo foi o caminho do reencontro, hein?
            — Bem mais longa a espera! Respondeu a jovem. Agora não o perco mais. Never! Never!
            Rui, de semblante entristecido e assustado, se mantinha em silêncio, enquanto ela:
            — Agora sim! Nos casaremos, teremos filhos...
            Num certo momento surgiu a chance e o rapaz contou-lhe a realidade de ambos.
            Aos prantos Any enxugava o rosto com as costas das mãos, exclamando:
            — Não pode... Não é possível... Agora é que entendo o porquê de tanta demora... — e saindo, sem olhar para traz, tomando o burburinho da rua, murmurava.

            — Era tarde demais para nós.

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