Iron
Junqueira
E
ela surgiu... Bela, vestido contornando as curvas do corpo, morena, linda,
sapato de salto alto, vistosa, perfumada...
Olhava-o
como se houvera dominado sua presa. Que ficou deslumbrado. Não havia percebido,
ainda, o quanto era perfeita, a linda morena, que, finalmente, lhe disse,
explicando sua aparição à porta de sua casa.
—
Vim para dar uma volta com você, neste bairro longe do centro...
—
Mas você está linda, pronta para uma festa?
—
Não, disse ela, pronta para você...
Notando que ele não entendia nada, deu-lhe a
graça de uma explicação.
—
Estou pronta para o meu último dia de solteira... Com você!
—
Você vai se casar então?
—
Sim, vou. Não pude lhe esperar...
E
foi mais clara:
—
Você nem se deu por conta, sequer, que eu te amei a vida toda e sempre me
tratou como uma colega de escola. Daquelas que você só lembra quando não tem
outra ao seu lado...
—
Nossa! Exclamou. Eu fui assim?
—
Sempre foi.
—
Oh, desculpe-me, Omaíra...
—
Mas como o Rilmar vivia pedindo minha mão em casamento, desistiu de o fazer a
mim, e foi pedi-la a meu pai...
—
E dai? Indagou Lucas.
—
Meu pai demorou um mês esperando minha decisão...
—
Mas eu não sabia de nada! Explicou o rapaz.
—
Foi o que notamos. Explicou Omaíra. Rilmar foi diante do meu pai e forçou a
barra dizendo que “você não estava nem aí” para nós e até nos viu sair juntos
do cinema...
—
É verdade Omaíra. Juro que eu não sabia que estávamos namorando... Afinal,
nunca nos falamos de namoro mesmo, né?
—Tive
que aceitar o convite do Rilmar.
—
E agora? Indagou o interlocutor, ex-pretendente dela.
—
Agora, meu namorado favorito, vim despedir-me, oferecendo “meu último dia a
você, com quem eu queria viver toda uma vida de casada”...
—
Engraçado... Vocês pensam... Resolvem as coisas... Deliberam... Mas nunca falam
nada... De repente, eis a surpresa!
—
Se você, que agora sabe de tudo, estiver disposto a casar-se comigo?...
—
Agora é tarde. Respondeu Lucas. Tanto o rapaz quanto a família de ambos estão,
todos, comprometidos... Agora é tarde... Muito tarde...
E
assim conversando o jovem casal passeava pelo jardim daquele bairro. Ela linda.
Mais do que nunca. O rapaz feliz por saber-se amado por ela, mas intimamente
massacrado por ter sido tão grandemente distraído...
Sentaram-se
num banco do local tranquilo e, entre as folhas e borboletas, se entreolhavam
mudos, pensativos e tristes.
“Meu
Deus, como ela é bela! Que amorenado igual... que sorriso... por que não me
disse antes que me pretendia como esposo”? Pensava Lucas...
—
Mas me escolheu para sua companhia no seu último dia de solteira? Por quê?
—
Nesse dia — disse ela — talvez você não saiba, tanto o noivo quanto a noiva, têm
direito ao seu último dia de solteirice...
—
Sim. Sabia. Só não sabia que o nosso estava tão próximo...
—
É... Enquanto você se envolvia com tantas... — O tempo passou.
—
Por que você me escolheu?
—
Eu já lhe disse... Você foi o único...
—
Não. Não fui. Havia o Rilmar!
—
Porque ele me ama! Lutou. Pediu minha mão!
—
Ok... Entendi... Não era para ser a minha...
E de braços abertos ao longo do encosto do
banco, tendo Omaíra ao seu lado, e esta, percebendo-o calado, disse-lhe:
—
Não se preocupe, Lucas. Ele foi passar seu último dia em Goiânia e eu não disse
a ninguém que viria ao seu encontro... Último anseio... Último desejo...
E
ali ficaram os dois até que anoiteceu. A lua os iluminava e às flores do
jardim, enquanto a brisa beijava suas frontes e seus lábios trocavam o último
beijo.
—
Agora preciso ir... Sozinha...
—
Eu sei.
Levantou-se...
Ajeitou o corpete do vestido... Sorrindo soprou-lhe um último beijo levado pelo
belo e sorridente adeus!
—
Adeus, meu querido... Foi maravilhoso... Enquanto durou...
—
E daqui para frente? Indagou Lucas.
—
Só Deus o sabe.
E
foi saindo de mansinho, tisnada pelo prateado beijo da lua.
Enquanto
o rapaz, triste, no banco, concluía, com voz quase apagada.
—
Lá se foi quem não foi minha.
19- Julho-2016

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