segunda-feira, 4 de julho de 2016

NO PÉ DE JATOBÁ - 04-07-2016


Iron Junqueira

            Nós estávamos debaixo do pé de Jatobá quando uma fruta daquela caiu em cima da cabeça do Juca Paiva. E ele de posição reta sem nem piscar os olhos caiu para trás pronta e rapidamente.
            Assustei-me com aquilo. Corri a acudir o amigo. Dormiu profundo. Fui sondar o que houve e achei o duro Jatobá. Não imaginei que uma fruta daquela fosse tão forte. Mas quando vi a altura da árvore entendi logo. Peguei a lata d’água corri ao córrego e despejei tudo na cara do Juca. — Acorda cara!
            O amigo levantou já nervoso olhando pra cima com os olhos espremidos e a mão no cocuruto, como se procurasse algo.
            — O que houve Juca?
            — Foi o Chico! É um macaco grande, magrelo, levado, que meu pai tem de estimação, aqui na fazenda...
            — O que tem ele?
            — É implicado comigo. Aquela imitação de gente, tendo chance, toda vez me pega com uma “Jatobazada” bem no meio da cabeça...
            Rapaz! Mas como dói um golpe de Jatobá bem no meio do coco!
            — É coco ou Jatobá? Conferi.
            — Coco, claro toda vez que vou contar isso tenho de repetir que é coco! Reclamou o Juca Paiva, nervoso, sobre o Jatobá.
            — É porque você conta do mesmo jeito... — tentei ser mais didático.
            — Claro! Se o Chico me acerta a cabeça no mesmo lugar.
            Fui olhar, um galo tinha se “assuspendido” na cabeça do pobre amigo.
            — Nossa Juca! O negócio está feio. Corri ao pé de limão mais próximo, cortei o limão com o canivete, e o espremi com vontade na cabeça do colega.
            — Fedaputa! No zóio não! Bradou ele.
            — Desculpa!
            — Uaii! Na cabeça também não!
            Joguei o limão no rio. Nada dava certo!
            — Hoje eu mato o Chico! Gritava o Juca hipernervoso. Ele me acerta no mesmo lugar. Parece ter um xis na minha cabeça só pra ele não errar. Catou um pedaço de pau. Viu o Chico nas grimpas e estava tão fulo que, com jogadas de braços, o Juca subiu no pé de Jatobá de 30 metros e foi de olhos no Chico.
            — Hoje eu mato o Chico!
            A raiva do amigo era tanta que eu não sabia como ele trepava nas galhas dando piruetas e gingadas no ar.
            — Nossa! Ele vai mesmo matar o Chico! Ele subia, mas não pegava o símio.
            Agachei ao pé da árvore protegendo a cabeça e os joelhos e só escutava gemidos de macacos lá em cima, pauladas, galhos quebrando e caindo, xingamentos e — eu te mato Chico! A voz do Juca me parecia alta, mas eu nem olhava de medo da fúria “rancando lasca”.
            De repente escutei um galho quebrando... e um gemido:
            — Aiiiii! — Desgrama!
            Um pouco mais e outro galho sendo partido com o peso de alguém...
            — Puta merda! Desta vez o Juca está decidido a matar o Chico...
            — Brrrrr! Uuuum! Mas o berro era do Juca.
            — Nossa esse nocaute agora foi do macaco. E cada vez mais perto, a terceira queda ecoou na floresta toda:
            — Ummmmmmm! Auouou! O gemido foi pertinho...
            Tirei a mão do rosto e fui averiguar as imediações...
            O Juca estava pendurado de quatro num tronco robusto do Jatobazeiro, braços estendidos, cara para cima, boca aberta. Tentei ajudar:
            — Tá bem, Juca?
            A custo, ele respondeu:
            — Matei o bicho?
            — Matou não Juca. O Chico está amarrando uma barrigueira na onça.
            — O quê? Gritou o Juca. Ele está arreando a onça pra vir me pegar...
            E mais rápido que um raio o meu amigo levantou e não sei como passou por mim como o The Flash e sumiu à minha frente...
            Segundos depois não vi nem poeira no escampado.
            Não faz um ano, passando próximo a Brazabrantes, tive a impressão de que avistei no horizonte avermelhado lá adiante contrastando com o céu a figura de um homem correndo à frente de um gato meio grande...
            Não sei por que me lembrei do meu amigo Juca e seu amigo Chico.


28/06/2016 

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