Iron
Junqueira
E
a pobre e magra mulher chamou-me pelo nome e parei na rua para atendê-la.
Estava aflita e eu às portas do Fórum às voltas com mais pessoas, cada qual com
seu problema.
—
Seu Iron — falou-me a que me abordou — estou arruinada! No maior desespero!
—
Mas o que foi dona...
—
Romilda! Chamo-me Romilda! Tomaram o meu filho.
—
Quem o tomou da senhora?
—
O mesmo pessoal que tomou os filhos dessas mães que estão aqui.
—
Ah, então é uma dessas mães que tiveram os filhos “levados” pelos doutores?
—
Sim, sou de Trindade. Deixei meu filho na casa de uma amiga...
—
Vamos subindo, expliquei, estou indo para o gabinete do Juiz, em companhia do
advogado... Vamos lá! As outras vão esperar aqui, porque sobre elas, já
conversei com o Doutor.
Na
sala do meritíssimo, o advogado, aquela mãe, o agente de menores, um policial e
eu, além do juiz.
—
Então continue seu caso...
E
dona Romilda contou.
—
Deixei meu filho de sete anos na casa de uma amiga para que eu fosse a Goiânia
ver se arranjava emprego por lá. Mas não achando serviço, voltei pra Anápolis e
pra casa da minha colega. Lá chegando, meu filho não estava mais... tinham
levado ele...
—
Levado para onde?
—
Não sei. Minha amiga disse que chegou uma mulher bonita e uma moça e o
motorista. Tomaram o meu filho das mãos da minha colega...
Houve
uma pausa no gabinete do Juiz.
—
E aí, doutor, indaguei, cadê o garoto da Romilda?
O
magistrado olhou para a sua assistente social, trocaram palavras sussurrantes,
e ele voltou a mim e me disse, olhando para o advogado:
—
O filho dela realmente foi tomado.
—
Mas com que autorização? Indaguei a ele:
—
Minha!
—
Não, doutor, me refiro à autorização legal, do pai, da mãe, da avó materna...
—
Essa, não tenho. Então, disse eu ao advogado — agora o senhor assume o
problema, está aqui a pedido meu para ajudar essa mãe a reaver o filho das mãos
do próprio Juiz...
Eles
— magistrado e o advogado — voltaram a trocar palavras quase inaudíveis,
sibilantes, mais para labiais, do que para serem entendidas.
Então
o magistrado me disse:
—
Foi tomado dela...
E
a mãe chorou compulsiva e desesperadamente:
—
Por que foi tomado? Por quê? E onde está?
O
juiz olhou para o advogado, como se buscasse respostas para me dar.
Notei
que juízes e advogados são pessoas mentirosas, simuladas, sempre estão dos dois
lados: trabalham para o cliente, mas por trás dos interesses de ambos estão os
próprios interesses.
—
Vamos, doutor, falei, com educação, cadê o garoto de Dona Romilda. Por que foi
retirado dela?
O
magistrado, por fim, desentupiu a fala:
—
Ela é prostituta!
Dona
Romilda, pobre, vestidinho encardido, surrado, magra de tanto trabalhar, mais
parecia uma molambenta do que uma prostituta, ficou super indignada e
desabafou, aos choros:
—
Eu, prostituta? Então o senhor não conhece uma prostituta.
O
advogado interveio. Foi se posicionar ao lado da autoridade. E a mulher ralhando,
pedindo provas de que ela era aquilo que ele disse.
O
homem inquieto e o promotor também. Esperei que se acalmassem um pouco e disse
ao Juiz:
—
Doutor, está obvio que o senhor não conhece a mulher, pois ela chegou aqui
comigo e eu a conheci agora na porta do Fórum. Eu sei que ela não é prostituta.
Apenas uma mulher pobre que vive de lavar roupas. Dai o senhor e o advogado
aqui...
—
Promotor, faz favor!
Interrompeu-me
o que eu supunha fosse o “meu advogado”, disposto a ajudar a mulher já que
chegou junto comigo.
—
Sim, o advogado, doutor, promotor, aqui, sem a conhecer a chamou de
prostituta?...
Fiz
uma pausa e me recordei...
—
Ambos me fazem lembrar de algo importante que preciso lhes perguntar.
—
Pois não. Aventurou o advogado.
—
Senhor Juiz e senhor Promotor: os senhores podem me garantir que os seus pais e
suas mães, — tanto os do magistrado quanto os do promotor — não prevaricaram
antes do casamento?
Já
que hoje em dia isso até se tornou normal?
No
que ficaram calados, aproveitei.
—
Esta mulher tem, sim, possibilidade de ter se prevaricado antes...
—
Porque ela está situada nessa condição: pobre, marido ausente, filhos pra
criar, e um raptado? Sequestrado? Ou... Traficado?...
Aproveitando
a hora de aparecer e mostrar serviço, o Sr. Orodim, agente de menor, ofereceu o
timbre da sua voz dirigindo-se à autoridade maior:
—
Doutor, o senhor quer que prenda ele?
Em
resposta, o agente Orodim ouviu um ríspido cale-se do magistrado.
O
Policial e o agente ficaram quietos e calados, assim, como estava o meritíssimo
e o promotor.
Foi
quando o que, no início, era advogado e tinha se transformado em promotor,
replicou.
—
Sr. Juiz, já que fui tratado aqui como mero advogado, peço minha retirada do
caso, pois me senti sob suspeição...
E
se retirou da sala. O Juiz mandou o agente buscar o menino que estava nalguma
sala no fórum e o entregou à mãe que o abraçou enxugando as lágrimas.
—
Mãe, disse o garoto, ao me ver, hoje eu vi esse homem. Eu queria ficar na casa
dele.
—
E por que não ficou lá? Indaguei.
—
Por que o homem da Kombi (o Sr. Orodim) disse que eu ia pra um lugar muito
longe...
—
Entendi... Então, dona Romilda, esse é o seu garoto?
—
Sim.
—
Está resolvido o seu caso?
—
Está.
—
Vai voltar pra Trindade?
—
Vou.
—
Mas não traga seu filho para Anápolis mais. Pois aqui é perigoso.
—
Sim, senhor. Peça a benção pro seu Iron, filho, e vamos.
Deu-me
aquele abraço. E saiu sem olhar para ninguém.
Somente
quatro na sala do doutor. Vendo que de estranho então era somente eu...
Fiz
um gesto com a mão direita, assim como se passasse uma régua no espaço, em
silêncio, e fui.
29/06/2016

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