segunda-feira, 11 de julho de 2016

QUAL UMA RÉGUA NO AR - 09/07/2016

Iron Junqueira

            E a pobre e magra mulher chamou-me pelo nome e parei na rua para atendê-la. Estava aflita e eu às portas do Fórum às voltas com mais pessoas, cada qual com seu problema.
            — Seu Iron — falou-me a que me abordou — estou arruinada! No maior desespero!
            — Mas o que foi dona...
            — Romilda! Chamo-me Romilda! Tomaram o meu filho.
            — Quem o tomou da senhora?
            — O mesmo pessoal que tomou os filhos dessas mães que estão aqui.
            — Ah, então é uma dessas mães que tiveram os filhos “levados” pelos doutores?
            — Sim, sou de Trindade. Deixei meu filho na casa de uma amiga...
            — Vamos subindo, expliquei, estou indo para o gabinete do Juiz, em companhia do advogado... Vamos lá! As outras vão esperar aqui, porque sobre elas, já conversei com o Doutor.
            Na sala do meritíssimo, o advogado, aquela mãe, o agente de menores, um policial e eu, além do juiz.
            — Então continue seu caso...
            E dona Romilda contou.
            — Deixei meu filho de sete anos na casa de uma amiga para que eu fosse a Goiânia ver se arranjava emprego por lá. Mas não achando serviço, voltei pra Anápolis e pra casa da minha colega. Lá chegando, meu filho não estava mais... tinham levado ele...
            — Levado para onde?
            — Não sei. Minha amiga disse que chegou uma mulher bonita e uma moça e o motorista. Tomaram o meu filho das mãos da minha colega...
            Houve uma pausa no gabinete do Juiz.
            — E aí, doutor, indaguei, cadê o garoto da Romilda?
            O magistrado olhou para a sua assistente social, trocaram palavras sussurrantes, e ele voltou a mim e me disse, olhando para o advogado:
            — O filho dela realmente foi tomado.
            — Mas com que autorização? Indaguei a ele:
            — Minha!
            — Não, doutor, me refiro à autorização legal, do pai, da mãe, da avó materna...
            — Essa, não tenho. Então, disse eu ao advogado — agora o senhor assume o problema, está aqui a pedido meu para ajudar essa mãe a reaver o filho das mãos do próprio Juiz...
            Eles — magistrado e o advogado — voltaram a trocar palavras quase inaudíveis, sibilantes, mais para labiais, do que para serem entendidas.
            Então o magistrado me disse:
            — Foi tomado dela...
            E a mãe chorou compulsiva e desesperadamente:
            — Por que foi tomado? Por quê? E onde está?
            O juiz olhou para o advogado, como se buscasse respostas para me dar.
            Notei que juízes e advogados são pessoas mentirosas, simuladas, sempre estão dos dois lados: trabalham para o cliente, mas por trás dos interesses de ambos estão os próprios interesses.
            — Vamos, doutor, falei, com educação, cadê o garoto de Dona Romilda. Por que foi retirado dela?
            O magistrado, por fim, desentupiu a fala:
            — Ela é prostituta!
            Dona Romilda, pobre, vestidinho encardido, surrado, magra de tanto trabalhar, mais parecia uma molambenta do que uma prostituta, ficou super indignada e desabafou, aos choros:
            — Eu, prostituta? Então o senhor não conhece uma prostituta.
            O advogado interveio. Foi se posicionar ao lado da autoridade. E a mulher ralhando, pedindo provas de que ela era aquilo que ele disse.
            O homem inquieto e o promotor também. Esperei que se acalmassem um pouco e disse ao Juiz:
            — Doutor, está obvio que o senhor não conhece a mulher, pois ela chegou aqui comigo e eu a conheci agora na porta do Fórum. Eu sei que ela não é prostituta. Apenas uma mulher pobre que vive de lavar roupas. Dai o senhor e o advogado aqui...
            — Promotor, faz favor!
            Interrompeu-me o que eu supunha fosse o “meu advogado”, disposto a ajudar a mulher já que chegou junto comigo.
            — Sim, o advogado, doutor, promotor, aqui, sem a conhecer a chamou de prostituta?...
            Fiz uma pausa e me recordei...
            — Ambos me fazem lembrar de algo importante que preciso lhes perguntar.
            — Pois não. Aventurou o advogado.
            — Senhor Juiz e senhor Promotor: os senhores podem me garantir que os seus pais e suas mães, — tanto os do magistrado quanto os do promotor — não prevaricaram antes do casamento?
            Já que hoje em dia isso até se tornou normal?
            No que ficaram calados, aproveitei.
            — Esta mulher tem, sim, possibilidade de ter se prevaricado antes...
            — Porque ela está situada nessa condição: pobre, marido ausente, filhos pra criar, e um raptado? Sequestrado? Ou... Traficado?...
            Aproveitando a hora de aparecer e mostrar serviço, o Sr. Orodim, agente de menor, ofereceu o timbre da sua voz dirigindo-se à autoridade maior:
            — Doutor, o senhor quer que prenda ele?
            Em resposta, o agente Orodim ouviu um ríspido cale-se do magistrado.
            O Policial e o agente ficaram quietos e calados, assim, como estava o meritíssimo e o promotor.
            Foi quando o que, no início, era advogado e tinha se transformado em promotor, replicou.
            — Sr. Juiz, já que fui tratado aqui como mero advogado, peço minha retirada do caso, pois me senti sob suspeição...
            E se retirou da sala. O Juiz mandou o agente buscar o menino que estava nalguma sala no fórum e o entregou à mãe que o abraçou enxugando as lágrimas.
            — Mãe, disse o garoto, ao me ver, hoje eu vi esse homem. Eu queria ficar na casa dele.
            — E por que não ficou lá? Indaguei.
            — Por que o homem da Kombi (o Sr. Orodim) disse que eu ia pra um lugar muito longe...
            — Entendi... Então, dona Romilda, esse é o seu garoto?
            — Sim.
            — Está resolvido o seu caso?
            — Está.
            — Vai voltar pra Trindade?
            — Vou.
            — Mas não traga seu filho para Anápolis mais. Pois aqui é perigoso.
            — Sim, senhor. Peça a benção pro seu Iron, filho, e vamos.
            Deu-me aquele abraço. E saiu sem olhar para ninguém.
            Somente quatro na sala do doutor. Vendo que de estranho então era somente eu...
            Fiz um gesto com a mão direita, assim como se passasse uma régua no espaço, em silêncio, e fui.

29/06/2016

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