PARA
FRENTE E PARA O ALTO
Iron
Junqueira
Amigo:
repara bem, a tua vida.
Deus
tudo te deu: dinheiro, saúde, um lar.
Um
gabinete de trabalho, onde mandas e não és mandado.
Uma
esposa dedicada e humilde, que te atende todos os caprichos.
Uns
filhinhos alegres e sadios, encantando o teu coração.
Deus
tudo te deu: um nome respeitado; uma posição social invejada. Largo círculo de
amizades. Uma casa confortável e um carro de luxo.
Além
de recursos econômicos sempre crescentes nas casas bancárias, Deus te deu ainda
o maior tesouro da vida: o conhecimento das verdades não reveladas “aos doutos
e sábios do mundo”, a fim de que pudesses, assim, melhorar a tua condição
espiritual.
Não
há, como vês, motivos para queixas. Até o discernimento cristalino quanto às
suas leis, te foi dado, amigo, para acertares desta vez, fazendo todo bem
possível: aplicando, em favor dos outros, os teus dotes de inteligência, a tua
saúde, a tua posição e, pelo menos, o supérfluo da tua mesa, bem como a tua
fortuna, que devia estar sendo ministrada, caridosamente, em benefício de
quantos carecem da tua compaixão.
No
entanto, que fazes de especial? Pelo visto, não sabes, sequer, mostrar gratidão
ao Grande Doador que tudo, enfim, te emprestou, temporariamente, pois é sabido
por ti que, da terra, nada levarás a não ser tua consciência tranquila pelo
dever retamente cumprido ou atormentado pelo bem que deixaste de fazer, quanto
podias.
Repara,
atentamente: procuras desviar os olhos até mesmo dos fracos e oprimidos
atirados a um canto da vida, quais refugos humanos, sem Deus, sem pão, sem lar.
Nem
te lembras do magro menininho que, enfermo, dorme nas sarjetas, tiritando de
frio e gemendo de fome?
O
que estás fazendo, meu caro, com os teus talentos?
Bebes
do bom vinho. Não há mal nisto, há? Comes do melhor. Passeias com a família
toda tarde. Entregas-te às distrações favoritas e levas uma vida a gosto. Não
há, em tudo isto, motivo de censura.
Todavia,
não te esqueças: “a quem muito foi dado, muito será pedido”.
Tropeçará
um dia no túmulo e despertarás do outro lado da vida e, o que será pior — de
mãos vazias.
E
te será exigida a prestação de contas:
—
“Que fizeste dos talentos que te dei”?
O
que haverás de responder? Nada, apesar de tantas chances. E grande será a tua
ruína!

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