Iron
Junqueira
Por
que, amigo, tanto orgulho?
Por
que desvias do pobre que passa?
Por
que estimas apenas os poderosos?
E
tu me dizes: — Somos da mesma linhagem!
Sim:
cada um vive como pensa.
Mas,
apesar da tua posição, da tua estirpe — dos andrajosos em nada te diferes!
E,
humilhado, me respondes:
—
Não somos iguais! Se existem os plebeus, é porque, maus, são inferiores a mim.
E
eu te falo: todavia, se não existissem os pobres, se todos fossem ricos, e da
mesma classe — não poderias tu, amigo, te destacares na vida!
E
entenderias, afinal, que somos iguais!
Ingenuidade
a tua, se te julgas superior aos outros: ouro e posição não representam
superioridade.
Se
um dia perderes o prestígio, o cargo, os títulos e tudo o mais — dos míseros que
desdenhas em nada te diferirás!
—
Mas me restará a nobreza do sangue! Exclamarás.
Oh!
Como o orgulho te embota a consciência! O Século Vinte e Um, com toda a sua
poderosa ciência não descobriu, ainda, diferença alguma entre o sangue do
monarca e o do plebeu!
Sana,
pois, esse orgulho! Olha que um dia, quando enfermo, te injetarão, na veia,
sangue de mendigo — e grande será o teu vexame!
E
se te julgas tão diferente do miserável — também teu corpo um dia apodrecerá!
Ris?
Mas com tanta presunção e preconceito, amigo, o maior ridículo não sou eu.
Todos são meus iguais.
E
quem te separa e te desiguala do maltrapilho? Tu somente, com este teu orgulho
assombroso... com este teu egoísmo — com esta tua vaidade!
Se
o mísero de que hoje escarneces e desprezas, um dia conquistasse tesouro e
posição — o que, aliás, às vezes, acontece — passarias a aceitá-lo a teu lado,
como amigo.
Visitá-lo-ias
no palacete. Respeitar-lhe-ias e tudo mais...
Parvo!
As aparências exteriores que nada são te prevalecem como atestado de nobreza, e
os dotes morais nada te representam?
Será
que não te larga essa milenar estupidez?
Infeliz!
És cheio de orgulho — e vazio de virtudes...
És
repleto de ouro — e pobre de entendimento... És brilhante por fora — e sombrio
por dentro...
Tens
robusto o corpo — mas doente o espírito...
“Por
fora, bela viola — por dentro, pão bolorento”.
Não
passas de um garrafão enfeitado com bonito rótulo, mas guardando deteriorado
vinho!
Tanto
orgulho e tanto preconceito, amigo, são coisas do passado.
Já
expirou o Século Vinte — já chegou o Terceiro Milênio.
E
dormes ainda como os ursos polares no inverno?
Quão
prolongado e milenar é o teu inverno, amigo!
Vamos!
Acorda! Sacode o teu espírito!
Vês?
Estamos nos aportando ao Terceiro Milênio e a tua consciência estagnou, acaso,
no antanho?
Sana
o teu orgulho — “quem se humilha, será exaltado”. Os pequenos são grandes — “os
últimos serão os primeiros”... “Sê perfeito, como perfeito é teu Pai
Celestial”.

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