segunda-feira, 30 de maio de 2016

OBSERVAÇÕES SOBRE O ORGULHO


Iron Junqueira

            Por que, amigo, tanto orgulho?
            Por que desvias do pobre que passa?
            Por que estimas apenas os poderosos?
            E tu me dizes: — Somos da mesma linhagem!
            Sim: cada um vive como pensa.
            Mas, apesar da tua posição, da tua estirpe — dos andrajosos em nada te diferes!
            E, humilhado, me respondes:
            — Não somos iguais! Se existem os plebeus, é porque, maus, são inferiores a mim.
            E eu te falo: todavia, se não existissem os pobres, se todos fossem ricos, e da mesma classe — não poderias tu, amigo, te destacares na vida!
            E entenderias, afinal, que somos iguais!
            Ingenuidade a tua, se te julgas superior aos outros: ouro e posição não representam superioridade.
            Se um dia perderes o prestígio, o cargo, os títulos e tudo o mais — dos míseros que desdenhas em nada te diferirás!
            — Mas me restará a nobreza do sangue! Exclamarás.
            Oh! Como o orgulho te embota a consciência! O Século Vinte e Um, com toda a sua poderosa ciência não descobriu, ainda, diferença alguma entre o sangue do monarca e o do plebeu!
            Sana, pois, esse orgulho! Olha que um dia, quando enfermo, te injetarão, na veia, sangue de mendigo — e grande será o teu vexame!
            E se te julgas tão diferente do miserável — também teu corpo um dia apodrecerá!
            Ris? Mas com tanta presunção e preconceito, amigo, o maior ridículo não sou eu. Todos são meus iguais.
            E quem te separa e te desiguala do maltrapilho? Tu somente, com este teu orgulho assombroso... com este teu egoísmo — com esta tua vaidade!
            Se o mísero de que hoje escarneces e desprezas, um dia conquistasse tesouro e posição — o que, aliás, às vezes, acontece — passarias a aceitá-lo a teu lado, como amigo.
            Visitá-lo-ias no palacete. Respeitar-lhe-ias e tudo mais...
            Parvo! As aparências exteriores que nada são te prevalecem como atestado de nobreza, e os dotes morais nada te representam?
            Será que não te larga essa milenar estupidez?
            Infeliz! És cheio de orgulho — e vazio de virtudes...
            És repleto de ouro — e pobre de entendimento... És brilhante por fora — e sombrio por dentro...
            Tens robusto o corpo — mas doente o espírito...
            “Por fora, bela viola — por dentro, pão bolorento”.
            Não passas de um garrafão enfeitado com bonito rótulo, mas guardando deteriorado vinho!
            Tanto orgulho e tanto preconceito, amigo, são coisas do passado.
            Já expirou o Século Vinte — já chegou o Terceiro Milênio.
            E dormes ainda como os ursos polares no inverno?
            Quão prolongado e milenar é o teu inverno, amigo!
            Vamos! Acorda! Sacode o teu espírito!
            Vês? Estamos nos aportando ao Terceiro Milênio e a tua consciência estagnou, acaso, no antanho?
            Sana o teu orgulho — “quem se humilha, será exaltado”. Os pequenos são grandes — “os últimos serão os primeiros”... “Sê perfeito, como perfeito é teu Pai Celestial”.



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