quarta-feira, 1 de junho de 2016

SE QUERES A PAZ 30-05-2016


Iron Junqueira

            Só é realmente feliz aquele que semeia a felicidade no caminho alheio e que está em paz com a própria consciência.
            Mas semear a felicidade na vida do próximo, não é apenas dar esmolas, ou ir a templos e rezar, rezar...
            É necessário que corrijamos primeiro a nós mesmos, deixando de praticar o mal, por menor que seja.
            Ainda ontem, uma senhora nos dizia que estava por desacreditar de Deus, porque rezava, rezava e não encontrava paz nenhuma. Disse que todo dia vai à igreja e lá desfila o seu rosário. Declarou que dava esmola sempre e, no entanto, não alcançava graça alguma. Sonhava com a paz e esta não aparecia nem à custa de preces e mais preces.
            Em conversa com a infeliz, compreendemos em parte o seu insucesso, na realização dos seus propósitos...
            De fato, rezava muito, mas, nas suas orações, só se lembrava de si mesma, de seu bem estar, e não lhe passava pela mente a ideia de orar, também, pelos outros, completamente esquecida de “tudo o que fizerdes ao vosso próximo é a vós mesmo que estareis fazendo,” esquecida de que “é dando que recebemos”.
            Dava esmolas e mais esmolas, aguardando, porém, que Deus, vendo o seu gesto, lhe recompensasse com a graça que pedira. Quer dizer, fazia a caridade, mas interessada em receber. Então, não era uma caridade. Era isto sim, uma pretensão de permuta, um negócio. Nunca praticara a beneficência por amor, livre e espontaneamente. Pretendia comercializar as suas boas ações com a Justiça Divina.
            Declarou ainda a mulher que cumpria promessas, caminhando, descalça, duas horas por dia, além de fazer outros exercícios físicos, quando o Pai, na sua bondade infinita, nunca pedira sacrifícios a ninguém, mas misericórdia, boa vontade para com ele e para conosco mesmos, ao declarar-nos ainda: “cuidai do vosso CORPO e da vossa ALMA”.
            Observamos agora: caminhava ela duas horas por dia. Se ocupasse, por exemplo, apenas meia hora, zelando de um doente, ou socorrendo alguém em aflição, essa meia hora suplantaria às duas horas de caminhada que outra valia não tinha, a não ser lhe servido de excelente exercício.
            Se deixasse de fermentar a vida alheia, com a rudeza de suas palestras; se evitasse censurar o próximo, mesmo por pensamento; se não perdesse tanto tempo sonhando com riquezas, luxos e satisfações próprias; se, finalmente, deixasse ela de bancar o “sepulcro caiado por fora, mas cheio de imundícies por dentro”, principiando, de imediato, a sua reforma íntima para o Bem, segundo os preceitos do Cristo — então, já teria conquistado a paz de espírito que tanto busca, e de que tanto necessita.
            Que adianta, afinal, caminhar duas horas por dia, sem realizar algo de nobre? Deus nunca pediu sacrifícios de ninguém...
            Também não seria necessário desfiar longos rosários, mecanicamente. Uma única prece, dita com fé e humildade, extraída do coração, em favor de alguém, valeria muito mais que longas horas de orações frias, quando só os lábios funcionam sem a participação da alma.
            Como se observa, o importante em tudo é exemplificar as ordens do Cristo, e não esperar receber graças dos céus sem as merecer, porque “a cada qual é dado, apenas, segundo o seu merecimento”.
            Ora se com a língua a nossa amiga amarga a vida alheia, espera, acaso, receber a paz? Se com os olhos invade o proceder do semelhante, para resolver o seu lado negativo, espera, por acaso, tranquilidade e paz? Quem planta o mal não pode, nunca, colher o bem.
            Se se ora com os lábios, sem a participação do sentimento, que é a força da prece — espera, porventura, receber uma resposta, ou alguma graça do Alto? Que esperança!
            Ora, “se tudo o que fizermos ao semelhante é a nós mesmos que o fazemos”, como conquistará a nossa amiga a paz e a felicidade com que sonha se, aos outros, só faz o que não devia, através de censuras, criticas e maledicência?
            Quem projeta sombras, não pode viver na luz.
            Quem vive no mal, não pode viver bem.




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