Iron
Junqueira
Só
é realmente feliz aquele que semeia a felicidade no caminho alheio e que está
em paz com a própria consciência.
Mas
semear a felicidade na vida do próximo, não é apenas dar esmolas, ou ir a
templos e rezar, rezar...
É
necessário que corrijamos primeiro a nós mesmos, deixando de praticar o mal,
por menor que seja.
Ainda
ontem, uma senhora nos dizia que estava por desacreditar de Deus, porque
rezava, rezava e não encontrava paz nenhuma. Disse que todo dia vai à igreja e
lá desfila o seu rosário. Declarou que dava esmola sempre e, no entanto, não
alcançava graça alguma. Sonhava com a paz e esta não aparecia nem à custa de
preces e mais preces.
Em
conversa com a infeliz, compreendemos em parte o seu insucesso, na realização
dos seus propósitos...
De
fato, rezava muito, mas, nas suas orações, só se lembrava de si mesma, de seu
bem estar, e não lhe passava pela mente a ideia de orar, também, pelos outros,
completamente esquecida de “tudo o que fizerdes ao vosso próximo é a vós mesmo
que estareis fazendo,” esquecida de que “é dando que recebemos”.
Dava
esmolas e mais esmolas, aguardando, porém, que Deus, vendo o seu gesto, lhe
recompensasse com a graça que pedira. Quer dizer, fazia a caridade, mas
interessada em receber. Então, não era uma caridade. Era isto sim, uma
pretensão de permuta, um negócio. Nunca praticara a beneficência por amor,
livre e espontaneamente. Pretendia comercializar as suas boas ações com a
Justiça Divina.
Declarou
ainda a mulher que cumpria promessas, caminhando, descalça, duas horas por dia,
além de fazer outros exercícios físicos, quando o Pai, na sua bondade infinita,
nunca pedira sacrifícios a ninguém, mas misericórdia, boa vontade para com ele
e para conosco mesmos, ao declarar-nos ainda: “cuidai do vosso CORPO e da vossa
ALMA”.
Observamos
agora: caminhava ela duas horas por dia. Se ocupasse, por exemplo, apenas meia
hora, zelando de um doente, ou socorrendo alguém em aflição, essa meia hora
suplantaria às duas horas de caminhada que outra valia não tinha, a não ser lhe
servido de excelente exercício.
Se
deixasse de fermentar a vida alheia, com a rudeza de suas palestras; se
evitasse censurar o próximo, mesmo por pensamento; se não perdesse tanto tempo
sonhando com riquezas, luxos e satisfações próprias; se, finalmente, deixasse
ela de bancar o “sepulcro caiado por fora, mas cheio de imundícies por dentro”,
principiando, de imediato, a sua reforma íntima para o Bem, segundo os
preceitos do Cristo — então, já teria conquistado a paz de espírito que tanto
busca, e de que tanto necessita.
Que
adianta, afinal, caminhar duas horas por dia, sem realizar algo de nobre? Deus
nunca pediu sacrifícios de ninguém...
Também
não seria necessário desfiar longos rosários, mecanicamente. Uma única prece,
dita com fé e humildade, extraída do coração, em favor de alguém, valeria muito
mais que longas horas de orações frias, quando só os lábios funcionam sem a
participação da alma.
Como
se observa, o importante em tudo é exemplificar as ordens do Cristo, e não
esperar receber graças dos céus sem as merecer, porque “a cada qual é dado,
apenas, segundo o seu merecimento”.
Ora
se com a língua a nossa amiga amarga a vida alheia, espera, acaso, receber a
paz? Se com os olhos invade o proceder do semelhante, para resolver o seu lado
negativo, espera, por acaso, tranquilidade e paz? Quem planta o mal não pode,
nunca, colher o bem.
Se
se ora com os lábios, sem a participação do sentimento, que é a força da prece
— espera, porventura, receber uma resposta, ou alguma graça do Alto? Que
esperança!
Ora,
“se tudo o que fizermos ao semelhante é a nós mesmos que o fazemos”, como
conquistará a nossa amiga a paz e a felicidade com que sonha se, aos outros, só
faz o que não devia, através de censuras, criticas e maledicência?
Quem
projeta sombras, não pode viver na luz.
Quem
vive no mal, não pode viver bem.

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