Iron
Junqueira
Conheci
Dona Chica ao sair da porta da Rádio Cultura. Quase dando uma topada no seu
corpo pequeno, de mulher magra e jovem, olhos grandes, vivos e curiosos.
—
Você é o Iron?
—
Sim. Em que posso lhe ser útil?
—
Moro no Bairro Jundiaí, perto de onde você está construindo o Lar da Criança...
—
Ah sim! Então estamos indo na mesma direção.
—
É verdade. Aproveito sua companhia e sigo seus passos até onde nos convier, se
não lhe incomodo?...
—
Claro que não! Será uma honra sua companhia. Respondi.
E
descemos a Barão do Rio Branco, que bem distante atravessaria a Av. Brasil, a
Praça das Lavadeiras e pegaríamos a Mato Grosso...
—
Sim, isto mesmo, a minha rua. Disse ela.
No
percurso contou-me que era ouvinte diária das minhas crônicas e que não perdia
nem uma. Todo meio dia e fim de tarde estava ela à beira do rádio, “bebendo”
suas palavras (expressão dela).
Falou-me
que trabalhava como merendeira numa escola — era casada e tinha onze filhos:
seu marido era “mestre de obras” e um grande pedreiro, que contava, também, com
inúmeras pessoas que trabalhavam em construção civil, e que se disporia a
leva-los à edificação do Lar dos Jornaleiros que eu estava construindo.
—
Mas que bom! A senhora caiu do céu!
—
E nem machuquei!
Brincou,
rindo comigo.
—
Os que são dEle não se machucam! Exclamei.
—
Sou frequentadora da Fraternidade Eclética Universal, o “Centro dos
Barbudos”...
—
Sim. Do Yocanan, conheço lá.
—
Nossos companheiros da Fraternidade Universal — completou ela — também todos
escutam suas crônicas e recomendam ouvir você. É de lá que vou mandar os
pedreiros.
—
Que bom! Já tenho os operários!
—
Só nos finais de semana porque são pobres e apenas têm esse dia de folga...
—
Não tem problemas. Durante a semana ajunto os materiais e, aos sábados e
domingos, eles levantam a obra. E nós — da Juventude — seremos os ajudantes.
—
Eu me encarrego de levar as amigas para fazer o almoço.
—
Sim, minhas amigas a ajudarão...
E
começamos o mutirão aos domingos. Constituiu-o as vinte e tantas moças e
meninos a colaborar na grande obra. Meninos, filhos, parentes das pessoas e
ouvintes dos programas, carregavam tijolos, adultos coavam areia, as moças, de
duas, uma em cada braço dos carrinhos de pedreiros, carregavam areia e os
poucos — e bons — rapazes faziam a massa, as mulheres, debaixo da paineira,
providenciavam o almoço; e a casa grande ia surgindo do chão rápida e a olhos
vistos.
Todos
movidos pela fé e amor ao próximo. Ninguém faltava ao seu óbulo na mão-de-obra.
Às cinco da tarde os pedreiros paravam “porque temos que dar uma “descansadinha”:
amanhã cedo temos que estar no batente”...
—
Claro, entendemos! Deus lhes pague! Até domingo!
—
Se Deus quiser! E Ele quer — respondiam os homens braçais.
—
E nós, agora! O que vamos fazer? Indagavam as 17 moças. E eu respondia.
—
Também vamos embora! Não sabemos fazer nada sem os profissionais, não iremos
estragar o que já está feito!
As
mulheres, esposas dos pedreiros e amigas nossas, ajeitavam as panelas de alumínio
e demais apetrechos de cozinheiro, cada qual pegando os seus. Sempre
conversando, rindo, brincando.
As
moças correndo de um lado para outro, uma delas cantando linda canção que eu
adorava “Por quê”, de Joelma, “Que será”, enquanto as outras, as que esconderam
os meus sapatos rindo às pampas, por me verem zangado à procura deles, dizendo
“ih, tá frio! Tá quente, tá frio...”
Até
que uma das senhoras reprimiam as meninas.
—
Entreguem os sapatos dele, meninas!
E
elas obedeciam. Quando descia as ruas do Jundiaí para a cidade, elas iam
comigo, cantando “Testarda Io”, “Yo que tanto amo tu”, e outras, num clima de
muita alegria e felicidade. Entre nós, a Dona Francisca Alves, seguida pelo
séquito de filhos, com seu sorriso bom e semblante feliz.
Assim
foram três anos. Até que a casa ficou pronta. Foi inaugurada. Muita festa e
alegria. Antes de abrir oficialmente suas portas, já amparava cinco crianças
que esperavam a inauguração.
No
decurso de um ano a casa estava lotada. Crianças abandonadas vinham de todo
canto, todo local, em todas as condições de pobreza, desidratação, fome,
abandono. Eu que tinha projeto de recolher só jornaleiros arrimos de família,
fui descobrindo que os necessitados da casa eram cada criança, mesmo as não
nascidas, filhas de mães cujos pais as expulsavam de casa por não terem tido
seus maridos, eu as recebia, a todos, porque deixar ao abandono uma mãe
solteira seria cometer o erro de muitos pais, porque estaria deixando às
durezas da vida duas crianças: a mãe e o filho. Dona Francisca era nossa
parteira. Houve, às vezes, dois partos por semana. Até eu ajudei Dona Chica a
fazer partos. E assim, o Lar da Criança HC, tinha já amparado a mais de duas
mil crianças.
Os
filhos de Dona Chica iam se tornando adultos e sua presença junto a eles se
tornara inevitável em quase tempo integral. Duas a três vezes ao dia um filho
seu aparecia à casa solicitando os favores de sua mãe.
Passado
mais tempo, ela cansada de lida tão esforçada aproximou-se de mim, dizendo-me:
—
Iron, vou me mudar para Estrela do Norte. Meus filhos estão todos adultos e
quero ajudá-los a viver sem minha presença. Até hoje não fazem nada sem o meu
concurso. Preciso deixa-los andar sozinhos. Já fiz de tudo para caminharem com
as próprias pernas, mas nada! Pensei que se eu me mudasse para longe.
Foi
aquela despedida triste, profundamente sentida, mas tive que atendê-la. Eu
ficaria isento de uma colaboradora de primeira linha e de múltiplas tarefas:
era enfermeira, era parteira, quem cuidava da farmácia, quem sabia o que tinha
ou porque chorava uma criança. Enfim, Tia Chica se foi. Mudou-se para Estrela
do Norte, onde seu belo coração tinha laços profundos e imortais.
Ficou
aquele vazio na Casa e no coração de todos. Tão logo lá chegou montou uma
pensão onde atendia os chegantes, viajores, a quem atendia gentil e
prontamente.
Aos
61 anos adoeceu e seus filhos foram fazer-lhe companhia. Estava com uma doença
inarredável na fronte. Seu filho foi buscá-la para tratamento. Disse que estava
tão mal que sua cabeça não suportava a trepidação do carro na estrada.
Sugeri-lhe buscá-la de avião evitando, assim, o desconforto de uma viagem tão
longa. Não sei se por egoísmo ou receio de perdê-la, neguei-lhe meu carro e seu
filho a trouxe noutro.
Mas
chegando a Anápolis, foi direto para a casa de uma de suas irmãs. Estava muito
debilitada pelo esforço da viagem e gravidade da doença.
Fui
à casa de sua irmã, e lá vi dona Chica no leito; aquele sorriso de alegria e
aquele olhar amorável cheio de brilho.
Reclinei-me
até seu rosto para ouvir-lhe o que pretendia dizer-me. Por mais tentasse falar,
eu nada ouvia. Acho que era devido a minha parca audição ou a sua fala muito
fraca e já se apagando. Notando que ela me ouvia bem, disse-lhe:
—
Tia Chica, eu não a ouço. Façamos o seguinte. O telefone tem um magneto. Vou
para casa e ligo para a senhora. E você, Divina (filha dela) atendendo, coloca
e segura o fone na direção da fala e audição dela. Daí, então, eu a ouvirei e
ela me escutará. Assim acordado, dei-lhe meu abraço querendo ficar ali. Mas
devido a este compromisso, despedi-me de todos. E fui.
Chegando
a casa liguei para a Divina. Tão logo me atendeu fez o que foi convencionado.
De telefone a postos, falei.
—
Dona Chica?
—
Sim, falou baixo, mas deu para eu ouvir: “deu para lhe ouvir, meu filho”...
—
Então, como está? Indaguei.
—
Feliz... — Respondeu ela e prosseguiu — feliz por estar falando com você tão
logo cheguei... Feliz por estar bem...
—
Mas doente? Bobeei — feliz estando doente?
—
Sim. Feliz por estar me sentindo bem... Uma felicidade, meu filho, tão
indescritível que queria lhe dá-la, como tal que jamais senti.
Não
havia amargura nem tristeza nem luto na presença de Tia Chica. Estava sua vida,
realmente, na plenitude máxima de sua ventura.
—
Fique com Deus, meu filho, fomos muito agraciados por Ele por termos nos
encontrado nesta... Vida... E fechou os olhos com zero força na fala.
Subiu
aos céus! SE DESPEDIU DE MIM POR TELEFONE.
30/07/2016

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