Iron
Junqueira
Eu
comprava, ou pedia ou ganhava material de construção e mandava colocá-los no
meu terreno, onde pretendia construir uma casa grande para colocar crianças em
condição de vulnerabilidade.
Os
pedreiros me contavam e eu conferia. De fato estavam levando meus materiais.
Mas continuei. Fiz questão de esquecer o problema já que não tinha solução.
Ia
repondo o que sumia. Em torno do meu terreno, outras casas iam sendo erigidas e
a nossa região prosperando.
Depois
de três anos o projeto da casa hospitaleira era plena realidade, e nós
realizando a tarefa de atender os pequenos.
Eram
agora os novos tempos. Tudo alegria e progresso, graças às realizações de
sonhos e esperanças.
Muitas
crianças sendo amparadas, educadas e profissionalizadas.
Quase
cinquenta anos depois, tive um sonho maravilhoso...
Um
senhor idoso tranquilo e sereno veio me visitar e me convidou para dar um
passeio com ele. E fomos andar pela rua abaixo. Entramos numa casinha simples
de gente simples. Foi quando ele contou:
—
Lembra-se de mim?
—
Sim, claro!
—
Pois é. Eu vivi feliz o resto da minha vida física, aqui, nesta casinha, com
esposa, um cachorro “Ogro” (nome dele) e uma gatinha, da Benedita...
E
continuava sua narrativa:
—
Meus vizinhos abaixo vieram me pedir lhes fizesse um favor... Que eu o
trouxesse às residências deles, nesta região onde estamos, e lhe contassem a
verdade: nós todos, naquele tempo, fomos quem tiramos seus materiais de
construção, para fazermos nossas humildes moradias. Você era um rapazinho
esforçado e tinha facilidade de conseguir todo material que precisava; então,
nós tiranos de quem podia dar...
No
que ri gostosamente por ouvir aquela revelação, ele concluiu:
—
Não ficaríamos, eu e meus vizinhos, de consciência em paz, se não lhe confessássemos
a verdade.
—
Que bom. Não me fez falta. Vocês tiravam, Deus repunha.
—
Através do seu trabalho. Receba, portanto, nossa gratidão. Disse o visitante.
Mas saiba que, quando você se sentia cansado e sozinho e entrava numa dessas
casinhas para pedir uma água ou conversar enquanto se descontraía, sua presença
era como a de um parente muito querido, e nos sentíamos felizes e orgulhosos
com sua visita, embora breve.
—
Não imaginava fosse assim. Pensava estar incomodando. Exclamei!
—
Não. Ao contrário. A gente era feliz e tínhamos toda a segurança só de você
morar perto de nós. Obrigado, outra vez.
Saímos
lá fora. A noite vista do lado de lá era linda. As portas das casinhas iam se
abrindo e pessoas nelas surgindo abanando a mão, felizes, como se, pela rua
passasse uma figura “importante”. Mas não. Era só eu.
Nada
é crime se não existe má intenção.
Com
um sorriso tudo segue melhor.
01/08/2016

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