Iron
Junqueira
E
o instrutor falava sempre ao Eduardo e demais adolescentes:
—
Não faça isso, que é erro, e a vida cobra!
—
Ah, tudo que se quer fazer é erro! Respondia ele, induzindo os colegas o
imitarem, sem querer.
—
Pra você separar, antes, o certo do errado, pense: gostaria eu, que alguém me
fizesse isso? Pense! Se não, não! Se sim, sim!
O
tempo rola e certa vez na rua à noite Eduardo passando à frente de antiga
pensão percebeu a porta cerrada. Meia noite. Abriu a porta semiaberta e entrou
na sala. Não havia ninguém. O dono da pensão dormia no sofá.
Ele
cautelosa e silenciosamente pegou a TV e ia saindo quando uma placa de gesso do
forro caiu fazendo barulho ao espatifar-se ao chão, acordando rápido o dono do
local e alguns hóspedes.
O
dono do local chamou a polícia que chegou em silêncio, mas rapidamente.
Recolheu o adolescente, jogou-o no camburão sem nada dizer.
Na
delegacia o puseram numa cela de piso com água.
—
Fique aí, pensando.
E
o guarda fechou a porta de aço deixando o rapaz sentado no molhado. Ele ouviu
apenas o barulho das grades de ferro sendo trancadas.
No
outro dia foi livrado pelo delegado. Um ano depois, passando em frente ao local
de amparo onde viveu sua infância, resolveu entrar e rever seu antigo
instrutor, a quem confessou o que lhe ocorrera, algum tempo depois que saiu de
lá.
—
Mas Seu Edson... Quando caí sentado e com as mãos no piso da cela, senti que
era um local com água. Fiquei só e assustado. Mas senti que o senhor estava lá
comigo me fazendo companhia. E passamos a noite. Sua presença parecia estar
viva ali, dizendo-me o de sempre.
—
Eduardo: não faça o que não pode. Pense antes: “eu gostaria que alguém me
fizesse isso? Não? Então não faça. Sim? Então está livre”!
—
Contei-lhe esse detalhe para lhe dizer que o bom conselho fica gravado na
cabeça da gente, e não se apaga mais. Era só. Passei para lhe agradecer. Fique
com Deus!
E
se foi. Agora que ele se foi, posso contar ao leitor, expressou o instrutor do
Eduardo:
—
A lição aprendida por alguém voltou e terminou de ser repetida pelo mesmo
instrutor ao pré-adolescente Luiz Ricardo que lhe perguntou:
—
Isso foi verdade?
—
Claro! Disse o instrutor. Você entendeu?
—
Sim. Disse Luiz.
—
Mas eu não esquecerei o “sim, sim, não, não”.
E
saiu pensativo, foi juntar-se aos colegas.
01/08/2016

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