terça-feira, 16 de agosto de 2016

“SIM, SIM”


Iron Junqueira

            E o instrutor falava sempre ao Eduardo e demais adolescentes:
            — Não faça isso, que é erro, e a vida cobra!
            — Ah, tudo que se quer fazer é erro! Respondia ele, induzindo os colegas o imitarem, sem querer.
            — Pra você separar, antes, o certo do errado, pense: gostaria eu, que alguém me fizesse isso? Pense! Se não, não! Se sim, sim!
            O tempo rola e certa vez na rua à noite Eduardo passando à frente de antiga pensão percebeu a porta cerrada. Meia noite. Abriu a porta semiaberta e entrou na sala. Não havia ninguém. O dono da pensão dormia no sofá.
            Ele cautelosa e silenciosamente pegou a TV e ia saindo quando uma placa de gesso do forro caiu fazendo barulho ao espatifar-se ao chão, acordando rápido o dono do local e alguns hóspedes.
            O dono do local chamou a polícia que chegou em silêncio, mas rapidamente. Recolheu o adolescente, jogou-o no camburão sem nada dizer.
            Na delegacia o puseram numa cela de piso com água.
            — Fique aí, pensando.
            E o guarda fechou a porta de aço deixando o rapaz sentado no molhado. Ele ouviu apenas o barulho das grades de ferro sendo trancadas.
            No outro dia foi livrado pelo delegado. Um ano depois, passando em frente ao local de amparo onde viveu sua infância, resolveu entrar e rever seu antigo instrutor, a quem confessou o que lhe ocorrera, algum tempo depois que saiu de lá.
            — Mas Seu Edson... Quando caí sentado e com as mãos no piso da cela, senti que era um local com água. Fiquei só e assustado. Mas senti que o senhor estava lá comigo me fazendo companhia. E passamos a noite. Sua presença parecia estar viva ali, dizendo-me o de sempre.
            — Eduardo: não faça o que não pode. Pense antes: “eu gostaria que alguém me fizesse isso? Não? Então não faça. Sim? Então está livre”!
            — Contei-lhe esse detalhe para lhe dizer que o bom conselho fica gravado na cabeça da gente, e não se apaga mais. Era só. Passei para lhe agradecer. Fique com Deus!
            E se foi. Agora que ele se foi, posso contar ao leitor, expressou o instrutor do Eduardo:
            — A lição aprendida por alguém voltou e terminou de ser repetida pelo mesmo instrutor ao pré-adolescente Luiz Ricardo que lhe perguntou:
            — Isso foi verdade?
            — Claro! Disse o instrutor. Você entendeu?
            — Sim. Disse Luiz.
            — Mas eu não esquecerei o “sim, sim, não, não”.
            E saiu pensativo, foi juntar-se aos colegas.

01/08/2016 


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