quarta-feira, 17 de agosto de 2016

O SEXO EM DOIS MUNDOS - 17/08/2016


Iron Junqueira

            Ela brilhava nas telas de todos os cinemas do mundo e não havia quem ela não encantasse. Não somente projetada nos espetáculos, mas ao vivo onde chegava.
            Houve por quem ela se inclinava com seus amores, como os que morriam pelos amores dela.
            Tão alva a pele que mais se assemelhava à pétala de linda flor e lhe emanava um perfume unicamente dela. Os homens caíam aos seus pés e suplicavam sua atenção, mesmo porque sua compleição física era o formato da perfeição e do feitiço.
            Mas aos vinte e poucos anos, morreu, vitimada por excessiva dose de calmantes.
            O mundo a pranteou, os homens quedaram-se entristecidos e seus amigos pouco criam no inesperado e imprevisível acontecimento.
            Aos que diziam suicídio, a lembrança de todos contestavam. De onde emergia uma explosão de vida e alegria — a par de ser por todos amada — não morreria, assim, por si mesma, nem por si própria.
            Passaram-se longos anos.
            Um dia ela foi vista por uma vidente muito ligada à ela, a quem disse:
            — Eu voltarei para onde você está.
            E a vidente, sorrindo:
            — Tomara que sim.
            — Mas eu não posso errar pelos excessos, tipo bebidas, remédios e tranquilizantes.
            — Você é chegada a essas coisas? Indagou a senhora Laura, do plano físico.
            — Não muito por vícios, mais por devassidão; tive vida complicada e sem cuidados e sem disciplina. Agora ando perdida por todos os lugares deste orbe, onde sou convocada pelo pensamento de milhares de pessoas, que me evocam pela lembrança; onde veem minhas fotos. Vivo saltando de regalo a regalo, assim como linda borboleta que oscula flor por flor nos Jardins das ilusões dos homens.
            — Sofre muito?
            — Não porque nunca estou só. Mas sempre com minhas atrações masculinas, a quem deleito e me deleitam.
            — E há como você conceder a eles o prazer da luxúria, dos anseios e dos sonhos?
            — É o que todos no plano físico fazem. Só que cada qual com a fraqueza, seu pensamento, seu ser, seu ego. Há os que se locupletam apenas com bebidas, drogas, crimes, jogos, presenças físicas amigas ou adversárias; outras, ainda, nas sombras ou se comprazendo em contas, dinheiros que brotam de suas mentes, como as relvas nascem do chão...
            — Qual é a sua tendência principal?
            — Ah, você sabe!
            — E sua experiência foi normal? Conta-me. Quero saber.
            — Oh, é um segredo...
            — Só para que eu registre como aprendizado. Insistiu Laura.
            — Aprendizado para não se fazer.
            — Claro! Respondeu a vidente, ao que o espectro da moça disse:
            — Está bem: tenho um amigo “no meu mundo”, que tem um amigo aí no mundo de vocês. O meu amigo chama o seu amigo (o encarnado) e eu uso você, falou à vidente...
            — Eu? Botou as mãos na boca, assustada e bastante surpresa. Mas não pode ser!
            — Não há como você evitar, Laura. Às vezes, até, é você quem me invoca, quando está com o seu companheiro encarnado.
            — O meu amigo enluva-se no corpo do seu parceiro e eu — disse a beldade do Plano Astral — justaponho-me ao seu corpo de médium e tudo acontece entre quatro entes, um casal desencarnado e outro encarnado.
            — Mas vocês não são espíritos? Indagou a medianeira Laura — Tem como?
            — E muito! Vocês não têm um corpo normal cada um? Juntando as energias magnéticas de ambos somando às emanações de tantos que os cercam e que, do lado de cá, participam, vocês não têm noção do quanto de ectoplasma podem nos fornecer! Vamos mudar de assunto? Não gosto de explicar isso. Essas coisas são feias... Embora prazerosas...
            — Meu Deus! Exclamou Laura — por isso tantos fatos diferentes e imprevisíveis me acontecem...
            — Tá... Muitos deles sou eu a responsável... — disse a etérea musa. E prosseguiu. Mas, como eu lhe dizia, logo estarei aí, junto de vocês. Nascerei filha de uma pobre mulher, serei fruto de amores clandestinos, num aparente parto aleatório, e logo serei levado para uma creche, um berçário, onde serei criada com carinho, amor, bons princípios e excelentes cuidados. Só não retornarei ostentando tanta atração e encantos que poderão concorrer com o meu fracasso, a exemplo do que me ocorrera.
            Serei uma excelente menina graças aos predicados que obterei no ambiente que cuidará da minha infância.
            Terei uma vida adulta como tantas por aí, sofrida no trabalho e num casamento disciplinar, pois para não repetir meus desregramentos, terei filhos difíceis, com problemas congênitos de saúde e, também, um marido que prescindirá, muito, dos meus cuidados.
            Poderei atrair alguns homens. Não serão outros senão os que foram meus colegas e parceiros da célebre encarnação. No entanto, estarão também limitados às suas provações e, vestindo novos corpos, fisicamente, ninguém atrairá ninguém. No entanto, a amizade, a simpatia de outrora, aquela impressão de que “parece que o (a) conheço”, nos ajudarão, casualmente, a colaborar com o progresso do semelhante. Entendeu?
            — Não. Respondeu Laura. Mas está bem. E quando irá renascer?
            — Foi bom perguntar. Eu já renasci na mesma cidade sua.
            — No entanto, você não me parece uma fantasminha!
            — Sou hoje uma menina de dez anos. Enquanto meu corpo dorme, que este é o horário noturno aí no plano físico — então vim fazer uma visita a você, dizendo-lhe que vá me visitar...
            — Onde a encontrarei?
            — Não se preocupe. Eu a encontrarei. Unicamente para ajudar você. E vice versa.
            Delicadamente aquela menina de dez anos, abanou a mão pequena e alva e sorrindo com muito amor, despediu-se.
            — Tchau, Tia Laura! Sabe a creche da Comunhão Espírita Irmãos Abnegados — CEIA —? É lá que estarei. Um casal está preparado para me adotar.
            — Até logo, querida?
            E se foi, enquanto Laura, pensando, julgava que tudo eram pensamentos seus.
22-07-2016



              

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