Iron
Junqueira
Ela
brilhava nas telas de todos os cinemas do mundo e não havia quem ela não
encantasse. Não somente projetada nos espetáculos, mas ao vivo onde chegava.
Houve
por quem ela se inclinava com seus amores, como os que morriam pelos amores dela.
Tão
alva a pele que mais se assemelhava
à pétala de linda flor e lhe emanava um perfume unicamente dela. Os homens
caíam aos seus pés e suplicavam sua atenção, mesmo porque sua compleição física
era o formato da perfeição e do feitiço.
Mas
aos vinte e poucos anos, morreu, vitimada por excessiva dose de calmantes.
O
mundo a pranteou, os homens quedaram-se entristecidos e seus amigos pouco criam
no inesperado e imprevisível acontecimento.
Aos
que diziam suicídio, a lembrança de todos contestavam. De onde emergia uma
explosão de vida e alegria — a par de ser por todos amada — não morreria,
assim, por si mesma, nem por si própria.
Passaram-se
longos anos.
Um
dia ela foi vista por uma vidente muito ligada à ela, a quem disse:
—
Eu voltarei para onde você está.
E
a vidente, sorrindo:
—
Tomara que sim.
—
Mas eu não posso errar pelos excessos, tipo bebidas, remédios e
tranquilizantes.
—
Você é chegada a essas coisas? Indagou a senhora Laura, do plano físico.
—
Não muito por vícios, mais por devassidão; tive vida complicada e sem cuidados
e sem disciplina. Agora ando perdida por todos os lugares deste orbe, onde sou
convocada pelo pensamento de milhares de pessoas, que me evocam pela lembrança;
onde veem minhas fotos. Vivo saltando de regalo a regalo, assim como linda
borboleta que oscula flor por flor nos Jardins das ilusões dos homens.
—
Sofre muito?
—
Não porque nunca estou só. Mas sempre com minhas atrações masculinas, a quem
deleito e me deleitam.
—
E há como você conceder a eles o prazer da luxúria, dos anseios e dos sonhos?
—
É o que todos no plano físico fazem. Só que cada qual com a fraqueza, seu
pensamento, seu ser, seu ego. Há os que se locupletam apenas com bebidas,
drogas, crimes, jogos, presenças físicas amigas ou adversárias; outras, ainda,
nas sombras ou se comprazendo em contas, dinheiros que brotam de suas mentes,
como as relvas nascem do chão...
—
Qual é a sua tendência principal?
—
Ah, você sabe!
—
E sua experiência foi normal? Conta-me. Quero saber.
—
Oh, é um segredo...
—
Só para que eu registre como aprendizado. Insistiu Laura.
—
Aprendizado para não se fazer.
—
Claro! Respondeu a vidente, ao que o espectro da moça disse:
—
Está bem: tenho um amigo “no meu mundo”, que tem um amigo aí no mundo de vocês.
O meu amigo chama o seu amigo (o encarnado) e eu uso você, falou à vidente...
—
Eu? Botou as mãos na boca, assustada e bastante surpresa. Mas não pode ser!
—
Não há como você evitar, Laura. Às vezes, até, é você quem me invoca, quando está
com o seu companheiro encarnado.
—
O meu amigo enluva-se no corpo do seu parceiro e eu — disse a beldade do Plano
Astral — justaponho-me ao seu corpo de médium e tudo acontece entre quatro
entes, um casal desencarnado e outro encarnado.
—
Mas vocês não são espíritos? Indagou a medianeira Laura — Tem como?
—
E muito! Vocês não têm um corpo normal cada um? Juntando as energias magnéticas
de ambos somando às emanações de tantos que os cercam e que, do lado de cá, participam,
vocês não têm noção do quanto de ectoplasma podem nos fornecer! Vamos mudar de
assunto? Não gosto de explicar isso. Essas coisas são feias... Embora
prazerosas...
—
Meu Deus! Exclamou Laura — por isso tantos fatos diferentes e imprevisíveis me
acontecem...
—
Tá... Muitos deles sou eu a responsável... — disse a etérea musa. E prosseguiu.
Mas, como eu lhe dizia, logo estarei aí, junto de vocês. Nascerei filha de uma
pobre mulher, serei fruto de amores clandestinos, num aparente parto aleatório,
e logo serei levado para uma creche, um berçário, onde serei criada com
carinho, amor, bons princípios e excelentes cuidados. Só não retornarei
ostentando tanta atração e encantos que poderão concorrer com o meu fracasso, a
exemplo do que me ocorrera.
Serei
uma excelente menina graças aos predicados que obterei no ambiente que cuidará
da minha infância.
Terei
uma vida adulta como tantas por aí, sofrida no trabalho e num casamento
disciplinar, pois para não repetir meus desregramentos, terei filhos difíceis,
com problemas congênitos de saúde e, também, um marido que prescindirá, muito,
dos meus cuidados.
Poderei
atrair alguns homens. Não serão outros senão os que foram meus colegas e
parceiros da célebre encarnação. No entanto, estarão também limitados às suas
provações e, vestindo novos corpos, fisicamente, ninguém atrairá ninguém. No
entanto, a amizade, a simpatia de outrora, aquela impressão de que “parece que
o (a) conheço”, nos ajudarão, casualmente, a colaborar com o progresso do
semelhante. Entendeu?
—
Não. Respondeu Laura. Mas está bem. E quando irá renascer?
—
Foi bom perguntar. Eu já renasci na mesma cidade sua.
—
No entanto, você não me parece uma fantasminha!
—
Sou hoje uma menina de dez anos. Enquanto meu corpo dorme, que este é o horário
noturno aí no plano físico — então vim fazer uma visita a você, dizendo-lhe que
vá me visitar...
—
Onde a encontrarei?
—
Não se preocupe. Eu a encontrarei. Unicamente para ajudar você. E vice versa.
Delicadamente
aquela menina de dez anos, abanou a mão pequena e alva e sorrindo com muito amor,
despediu-se.
—
Tchau, Tia Laura! Sabe a creche da Comunhão Espírita Irmãos Abnegados — CEIA —?
É lá que estarei. Um casal está preparado para me adotar.
—
Até logo, querida?
E
se foi, enquanto Laura, pensando, julgava que tudo eram pensamentos seus.
22-07-2016

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