Iron
Junqueira
Certo
dia estava eu no escritório escrevendo às custas da minha Olivette azul, quando
uma mulher bonita, mais ou menos da minha idade, penetrou a sala, posou as mãos
na mesinha da máquina, e olhando-me nos olhos, me indagou, séria. Tinha uma
pinta no meio da testa.
—
Lembra-se de mim?
Olhei-a
com mais atenção, detalhando a estrela na sua fronte, respondi-lhe com toda
sinceridade:
—
Não tinha como esquecê-la...
—
E ?... — Voltou ela.
—
Não me lembro de você! Mas recordo essa pinta no rosto. Tem o minúsculo formato
de uma estrela?
—
Sim. Respondeu-me.
—
Posta aí, para alguém não esquecê-la. E eu a esqueci.
—
Que mais? Indagou ela.
—
Nem perdê-la para outro.
—
Parece-me ter ouvido essa observação. Anotei.
—
E você me esqueceu?
—
Sim. Não me lembro de você. Pelo menos por ora...
—
Você se casou, não é?
—
Sim. Há tempos.
—
Nem me avisou?
—
Não me lembro de você.
—
Nem da estrela na testa?... que era pra você não me perder?
—
Pode ser. Eu teria dito isso sim. Mas, sequer, lembro seu nome.
—
Maria.
—
Estrela Maria... Verdade. Não podia tê-la esquecido. Me conheço.
—
E agora? Cobrou a recém-chegada.
—
Agora, cada qual seguindo seu caminho.
Olhando-me,
fixa, não piscou nem disse nada. Apenas estendeu a mão que beijei, sem tempo de
levantar-me, tendo ela chegado, conversado, exposto e saído, sem uma palavra.
Desceu
a rua pela porta em que saiu, à esquerda.
Hoje
deve estar fazendo algumas dezenas de meses, e não me lembrava nem mesmo da
visita de Maria Estrela...
De
repente, contudo, um capítulo, com Maria, recordei: de uma bonita menina que
ficou na escuridão da minha memória...
Na
lembrança, ela morava no centro da cidade, em frente onde hoje é a Churrascaria
Caiçara, numa casa colonial, a rua era sem iluminação, quase não se via nada.
Toda noite na hora da aula eu ia para lá, ver Maria...
Era
mesmo bonita menina com pequena pinta bem no centro da fronte. Ficava eu de pé
em frente a ela e, ela, no claro da porta de uma lâmpada pálida que vinha da
sala.
Era
tanta coisa que nos solicitava longas horas a conversar. A voz de sua mãe nos
convidava a entrar, no entanto, preferíamos a brisa da noite para a tão séria
(?) conversa.
Um
dia uma colega cobrou minhas faltas de aulas, na escola. Emendando esta
cobrança, houve várias outras, também de Dona Neném (minha mãe) repetida por
bons amigos que não pude fugir a esse dever sempre prometido, mas nunca
cumprido, até hoje, cinquenta anos depois.
Daí
fui frequentando escola noturna até a metade das aulas; o restante do tempo era
a segunda sessão do cinema com as moças; ora com uma, ora com outra, ou com
Omaíra...
E
de braço em braço, fui levando meu tempo longamente perdido. E foi nessa órbita
que perdi o brilho da estrela... que não mais me lembrei da Maria da estrela,
que morava na rua escura daquele tempo, que hoje é uma das mais belas,
concorridas e iluminadas da cidade...
E
Maria? Não sei. Às vezes penso se ela existiu e só passou por minha vida. Ou se
já cruzamos os passos pelas ruas e não nos reconhecemos? Hoje que ouço esta
canção me veio ela à lembrança, trazendo-me uma saudade incrível, como se, de
fato, nos conhecemos outrora — e fomos felizes!
Ela
com sua formosura e adereço na fronte, para nunca esquecê-la...
Eu
com essa tristeza por tê-la desdenhado e nada dito para ela quanto ao meu não
retorno...
Um
pressentimento, melancólico, percorre meu peito e minha alma...
Uma
criança entra na minha sala e me pede uma balinha. Ao se retirar, correndo,
porque a mãe a esperava, disse-me:
—
Brigado, tio. Brigado tia!
Que
tia? Pensei. Estou só eu aqui.
—
Robinho! Venha aqui por favor! Chamei-o.
Ele
retornou retirando o invólucro da bala doce...
—
O quê, tio?!
—
Você falou Tio e Tia?
—
Foi! Disse que chama Maria Estrela! Tchau! E saiu do escritório, às pressas,
indo ao encontro da mãe.
—
“Lembra-se de mim”?
Pareceu-me
ouvi-la dizer.
20/07/2016

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